Questão
2006
FCC
Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais
Redator de Acórdão e Correspondência (TCE MG)
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
1379100936
Uma das provas mais evidentes do que Tucídides julga ser o pensamento político é a exposição das causas do conflito, que encontramos no início de sua obra [sobre a guerra do Peloponeso]. Já Heródoto começara a sua obra com a causa da guerra entre a Europa e a Ásia. Considerava o problema do ponto de vista da culpa do conflito. Naturalmente, este problema também foi levantado pelos partidos durante a guerra do Peloponeso. Todas as particularidades haviam sido, desde o começo da grande conflagração, discutidas vezes sem conta, sem perspectiva de se chegar a um acordo, visto que os dois contendores atribuíam a culpa um ao outro. Tucídides coloca o problema de um ponto de vista completamente novo. Distingue entre as razões da discórdia que acenderam a luta e a “verdadeira causa” da guerra, chegando à conclusão de que esta reside no incrível aumento do poderio de Atenas, que constituía uma ameaça para Esparta. O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina, como deixa ver a palavra prófacis, que Tucídides emprega. Foi ela que pela primeira vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma. A transferência deste pensamento naturalista e biológico para o problema do nascimento da guerra não era um ato puramente formal: significava a total objetivação do assunto, separando-o da esfera política e moral. A política é assim delimitada como um campo autônomo da causalidade natural. A luta secreta entre formas opostas conduz finalmente à crise aberta da vida política da Hélade. O conhecimento desta causa tem algo de libertador, pois coloca aquele que o possui acima das odiosas lutas dos partidos e do espinhoso problema da culpa e da inocência. Mas também tem algo de opressivo, pois faz aparecer como resultantes de um longo processo, condicionado por uma mais alta necessidade, acontecimentos que tinham sido considerados como atos livres da consciência moral.

Obs.:Tucídides - historiador grego (aprox. 460-395 AC)
Heródoto - historiador grego (aprox. 480-425 AC)
Hélade - nome primitivo da Grécia

(JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.451-452.)

Foi ela que pela primeira vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma.

Considerados a frase acima e o seu contexto, é correto afirmar:
A
a expressão Foi ela que, que tem implícita uma idéia de exclusão, é recurso de que se vale o autor para manifestar total convicção acerca do que assevera.
B
a substituição de Foi ela que por “Sendo ela que” seria eficaz recurso de estilo, pois, sem comprometer a formalidade, sofisticaria a expressão e revelaria domínio do escritor no uso do gerúndio, em muitos casos inaceitável pela norma culta.
C
o adjetivo mero, em o seu mero sintoma, foi empregado na acepção de “imprevisível”, como no exemplo: “Por mera sorte encontrava-se lá naquele instante”.
D
o sentido original e a conformidade com a norma culta da Língua Portuguesa não seriam afetados se, em vez de o seu mero sintoma, ocorresse a formulação “um seu mero sintoma”.
E
uma vírgula posta entre distinção e científica, ainda que não obrigatória, poderia ser utilizada para dar ênfase ao adjetivo, recurso estilístico aceitável, pois não haveria comprometimento da norma culta da Língua Portuguesa.