O fragmento a seguir, retirado da peça “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna.
[...]
(Cena igual à da aparição de Nosso Senhor, e Nossa Senhora, a Compadecida, entra).
ENCOURADO [com raiva surda] - Lá vem a compadecida! Mulher que em tudo se mete!
JOÃO GRILO - Falta de respeito foi isso agora, viu? A senhora se zangou com o verso que eu recitei?
A COMPADECIDA - Não, João, por que eu iria me zangar? Aquele é o versinho que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma oração, uma invocação. Tem umas graças,
mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei. Quem gosta de tristeza é o diabo.
JOÃO GRILO - É porque esse camarada aí, tudo o que se diz ele enrasca a gente, dizendo que é falta de respeito.
A COMPADECIDA - É máscara dele, João. Como todo fariseu, o diabo é muito apegado às formas exteriores. É um fariseu consumado.
ENCOURADO - Protesto.
MANUEL - Eu já sei que você protesta, mas não tenho o que fazer, meu velho. Discordar de minha mãe é que não vou.
[...]
A COMPADECIDA - E para que foi que você me chamou, João?
JOÃO GRILO - É que esse filho de chocadeira quer levar a gente para o inferno. Eu só podia me pegar com a senhora mesmo.
ENCOURADO - As acusações são graves. Seu filho mesmo disse que há tempo não via tanta coisa ruim junta!
A COMPADECIDA - Ouvi as acusações.
ENCOURADO - E então?
[...]
A COMPADECIDA - Intercedo por esses pobres que não têm ninguém por eles, meu filho. Não os condene.
MANUEL - Que é que eu posso fazer? Esse aí era um bispo avarento, simoníaco, político...
A COMPADECIDA - Mas isso é a única coisa que se pode dizer contra ele. E era trabalhador, cumpria suas obrigações nessa parte. Era de nosso lado e quem não é contra nós é por nós.
[...]
ENCOURADO - A senhora está falando muito e vê-se perfeitamente sua proteção com esses nojentos, mas nada pôde dizer ainda em favor da mulher do padeiro.
A COMPADECIDA - Já aleguei sua condição de mulher,escravizada pelo marido e sem grande possibilidade de se libertar. Que posso alegar ainda em seu favor?
PADEIRO - A prece que fiz por ela antes de morrer. O mais ofendido pelos atos que ela praticava era eu e, no entanto, rezei por ela. Isso deve ter algum valor.
A COMPADECIDA - E tem. Alego isso em favor dos dois.
MANUEL - Está recebida a alegação.
A COMPADECIDA - Quanto a Severino e ao cabra dele...
MANUEL - Quanto a esses, deixe comigo. Estão ambos salvos.
ENCOURADO - É um absurdo contra o qual...
MANUEL - Contra o qual já sei que você protesta, mas não recebo seu protesto. Você não entende nada dos planos de Deus. Severino e o cangaceiro dele foram meros instrumentos de sua cólera. Enlouqueceram ambos, depois que a polícia matou a família deles e não eram responsáveis por seus atos. Podem ir para ali.
[Severino e o Cangaceiro abraçam os companheiros e saem para o céu.]
BISPO - E nós?
SACRISTÃO - Decida-se logo, por favor, porque essa ansiedade é pior do que qualquer outra coisa.
MANUEL - Não diga isso, você não sabe o que se passa lá. Qualquer ansiedade é melhor do que aquilo.
ENCOURADO - É, mas não posso ficar eternamente à espera. Qual é a sentença?
A COMPADECIDA - Um momento, meu filho. Antes de dizer qualquer coisa, não se esqueça de que o frade absolveu a todos condicionalmente e rezou por eles.
MANUEL - Pois não. Vou então proferir a sentença.
[...]
ENCOURADO - Não tem jeito não. Homem governado por mulher é sempre sem confiança!
MANUEL - Podem ir, vocês cinco.
[Os cinco se despedem comovidamente de João Grilo].
JOÃO GRILO - Muito bem. Desmanchem essa cara de enterro e boa viagem para todos
[Saem
todos].
MANUEL - E agora, nós, João Grilo. Por que sugeriu o negócio para os outros e ficou de fora?
JOÃO GRILO - Porque, modéstia à parte, acho que meu caso é de salvação direta.
[...]
A COMPADECIDA - Deixe comigo. [a Manuel]. Peço-lhe então, muito simplesmente, que não condene João.
[...]
JOÃO GRILO - Quer dizer que posso voltar?
MANUEL - Pode, João, vá com Deus.
[...]
A COMPADECIDA - Até à vista, João.
[...]
MANUEL - Se a senhora continuar a interceder desse jeito por todos, o inferno vai terminar como disse Murilo: feito repartição pública, que existe mas não funciona.
(SUASSUNA, Ariano. O Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Agir, 2005)
A rubrica é uma característica dos textos teatrais, sendo fundamental na orientação da peça, uma vez que indica ações que devem ocorrer ao longo das cenas. Vê-se um exemplo de rubrica na alternativa: