Veríssimo e o Natal
Crônica do Natal (de novo)
1. Tenho inveja dos cronistas novos. Não porque eles
não sabem que todas as crônicas de Natal já foram
escritas e podem escrevê-las de novo. Mas porque
podem fazer isto sem remorso.
2. Tem a crônica de Natal tipo “o que eu gostaria que
Papai Noel me trouxesse”. A Luana Piovani ou um facsímile
razoável, a paz entre os povos, um centroavante para o
Internacional (ou um fac-símile razoável) etc.
3. Tem as infinitas variações sobre problemas encontrados
por Papai Noel no mundo moderno (seu trenó
levado num assalto, sua dificuldade em se identificar
em portarias eletrônicas, protestos de ambientalistas
contra o seu tratamento das renas, suspeita de exploração de
trabalho escravo, suspeita de pedofilia etc.).
4. Tem as muitas maneiras de atualizar a história
da Natividade (Maria e José em fila do SUS, os Reis
Magos chegando atrasados porque foram detidos por
patrulhas israelenses ou militantes palestinos, Jesus
vítima de uma bala perdida).
5. Tem as versões diferentes da cena na manjedoura, inclusive,
juro que já li esta, se não a escrevi —
narrada do ponto de vista do boi.
6. Todas já foram feitas.
7. Há tantas crônicas de Natal possíveis quanto há
meios de se desejar felicidade ao próximo. Os cartões
de fim de ano são outro desafio à criatividade humana.
Pois todas as suas variações também já foram
inventadas. Quando eu trabalhava em publicidade,
todos os anos recebia encomendas de saudações de
Natal e Ano Novo “diferentes”, porque os clientes não
se contentavam em apenas desejar que o Natal fosse
feliz e o Ano Novo fosse próspero. Uma vez sugeri um
cartão de Natal completamente branco com a frase
“Aquelas coisas de sempre...” num canto, mas acho
que este foi considerado diferente demais. E dê-lhe
poesia, pensamentos inspiradores, má literatura e a
busca desesperada do diferente. Um cartão em forma
de sapato, de dentro do qual saía uma meia: a meia
para o Papai Noel encher de presentes e o sapato
para entrar no Ano Novo de pé direito. Coisas assim.
8. Enfim, tudo isto é apenas para desejar a você...
Aquelas coisas de sempre.
(Luís Fernando Verissimo (in) http://peramblogando.blogspot.com)
Pode-se inferir sobre o texto que