VALE POR DOIS?
Fernando Sabino
1° Pela manhã, a sair de casa, olha antes à janela:
2º – Estará fazendo frio ou calor?
3º Veste um terno de casimira, torna a tirar, põe um tropical. Já pronto para sair, conclui que está frio, devia ter ficado com o de casimira. Enfim... Consulta aflitivamente o céu nublado: será que vai chover?
4º Volta para pegar o guarda-chuva – um homem prevenido vale por dois: pode ser que chova. Já no elevador, resolve mudar de ideia: mas também pode ser que não chova. Carregar esse trambolho! Torna a subir, larga em casa o guarda-chuva.
5º Já na esquina, cossa a cabeça, irresoluto: de ônibus ou de táxi? Se passar um lotação jeitozo eu tomo. Eis que aparece um. Vem em disparada, quase o atropela, para deter-se ao sinal que lhe fez. Não, não entro: esse são dos doidos, que sai alucinado por aí.
6º Deixa que outros passageiros entrem – quando afinal se decide também a entrar, é barrado pelo motorista: não tem mais lugar. De táxi, pois. Passa um táxi vazio, fica na dívida, não lhe faz sinal algum. Logo virá outro – pensa, irritado, e se vê de súbito entrando num lotação. Ainda bem não se sentara, já se arrependia: é um absurdo, são desvairados esses motoristas, como é que deixam gente assim tirar carteira? Assassinos – assassinos do volante. Melhor saltar aqui, logo de uma vez. Poderia esperar ainda dois ou três quarteirões, ficaria mais perto... Deu o sinal: salto aqui, decidiu-se. O lotação parou.
7º – Pode tocar, foi engano – balbuciou para o motorista.
8º Já de pé na calçada, vacila entre as duas ruas que se oferecem: uma, mais longa, sombreada; outra, direita, castigada pelo sol. Não iria chover, pois: sua primeira vitória neste dia.
9º Se for por esta rua, chego atrasado, mas por esta outra, com tanto calor...
10º Só então se lembra que ainda não tomou café: entra no bar da esquina e senta-se a uma das mesas:
11º – Um cafezinho.
12º O garçom lhe informa que não servem cafezinho nas mesas, só no balcão. Pensa em levantar-se, chega mesmo a empurrar a cadeira para trás, mas reage: pois então tomaria outra coisa ora essa. Como também pode simplesmente sair do bar sem tomar nada, não é isso mesmo?
13º – Me traga uma média – ordena, com voz segura que a si mesmo espantou. Interiormente sorri de felicidade – mais um problema resolvido.
14º – Simples ou com leite? Pergunta o garçom, antes de servir.
15º Ele ergue os olhos aflitos para o seu algoz, e sente vontade de chorar.
I - O tema da crônica de Fernando Sabino é a indecisão humana.
II - Para o personagem, o garçom tornou-se algoz porque o obriga a mais uma decisão.
III - Pelo texto concluímos que o termo tropical é impróprio para dias frios.
Quais afirmativas estão corretas?