A MEMÓRIA E O CAOS DIGITAL
Fernanda Colavitti
A era digital trouxe inovações e facilidades para o homem que superou de longe o que a ficção previa até pouco tempo atrás. Se antes precisávamos correr em bus ca de in formações de nosso interesse, hoje, úteis ou não, elas é que nos assediam: resultados de loterias, dicas de cursos, variações da moeda, ofertas de compras, notícias de atentados, ganhadores de gincanas, etc. Por outro l ado, enquanto cresce a capacidade dos discos rígidos e a velocidade das informações, o desempenho da memória humana está fi cando cada vez mais comprometido. Cientistas são unânimes ao associar a rapidez das in formações geradas pelo mundo digital com a restrição de nosso "disco rígido" natural. Eles ressaltam, porém, que o problema não est á propriamente nas novas tecnologias, mas no uso exagerado del as, o que faz com que deixemos de lado atividades mais estimulantes, como a leitura, que envolvem diversas funções do cérebro. Os mais prejudicados por esse processo têm sido crianças e adolescent es, cujo desenvolvimento neuronal acaba sendo moldado preguiçosamente.
Responda sem pensar: qual era a manchete do jornal de ontem? Você lembra o nome da novela que antecedeu o Clone? E quem era o técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994? Não ter uma resposta imediata para essas perguntas não deve ser causa de p reocupação para ninguém, mas exemplifica bem o problema constatado pela fonoaudióloga paulista Ana Maria Maaz Alvarez, que há mais de 20 anos estuda a relação entre audição e recordação.
A pedido de duas empresas, ela realizou uma pesquisa para saber o que estava ocorrendo com os funcionários que reclamavam com freqüência de lapsos de memória. Foram entrevistados 71 homens e mulheres, com idade de 18 e 42 anos. A maioria dos esquecimentos era de natureza auditiva, como nomes que acabavam de s er ouvidos ou assuntos discutidos. (Por falar nisso, responda sem olhar no parágrafo anterior: você lembra o nome da pesquisadora citada?)
Ana Maria descobriu que os lapsos de memória resultavam basicamente do excesso de inform ação em conseqüência do tipo de trabalho que essas pessoas exerciam nas empresas, e do pouco tempo que dispunham para processá-las, somados à angústia de querer saber mais e ao excesso de atribuições. "Elas não se detinham no que est ava sendo dito (lido, ouvido ou visto) e, conseqüentemente, não conseguiam gravar os dados na memória", afirma.
(Fonte Internet : "Superinteressante", 2001).