Leia o texto abaixo e responda à questão proposta.
Música ao Longe
Érico Veríssimo
O relógio da varanda bate dez horas
João de Deus abafa um bocejo. Tia Zezé cochila a um canto. D. Clemência tricoteia. Cleonice e seu pio conversam e chupam caramelos na outra sala.
A noite vai ficando velha e nada aconteceu. Sem que Clarissa saiba exatamente por que, seus olhos ao menor ruído se erguem de repente e se fixam na porta, como se estivessem esperando a entrada de alguém.
O serão se prolonga. Papai fala no irmão que se suicidou. Por um instante a alma do afogado está presente. Depois falam na mãe de Vasco. Depois, em seu Leocádio. E todos os mortos vão chegando de mansinho e sentam-se nas cadeiras vazias, tomando parte também no serão.
E o relógio tiquetaqueia. E quando se faz silêncio entre os vivos, são os mortos que estão falando. Até o tio Amâncio comparece em espírito, tossindo e acariciando o bigode ralo.
Clarissa olha para as páginas da revista que tem nas mãos, olha mas sem ver. E vai folheando à toa. Um ruído... E seus olhos se erguem para a porta. “Na próxima vez não olho, podem até bater. Que bobagem!” mas estrala uma viga e de novo os olhos de Clarissa se alçam.
Fecha a revista, levanta-se, pede a bênção dos pais, dá boa noite aos outros e sobe para o quarto.
Agora ela vai aqui subindo, calada, contrita, com medo até de pensar.
Dentro do quarto encontra um doce intruso. O luar. O luar fresco de setembro, com perfume de madressilva e de junquilhos.
Clarissa fecha a porta.
Melhor não acender a luz, para não quebrar o encantamento. Vai até a janela. A lua-cheia sobre Jacarecanga. A rua quieta. Uma corneta tocando longe, num quartel. A presença silenciosa das estrelas. Cachorros uivando. Galos cantando.
Anoite enorme, a noite sem fim. E o silêncio fundo que de quando em quando se faz quando os galos e os cachorros se calam, quando todas as vozes se finam, quando nenhuma folha se move.
Clarissa encosta a cabeça na vidraça e fica olhando a rua.
(Música ao Longe, Porto Alegre: Globo, 1956)
No trecho: “(...) para não quebrar o encantamento.”(11º§), a palavra em negrito foi formada pelo seguinte processo: