Questão
2022
VUNESP
Prefeitura Municipal de Piracicaba (SP)
Escriturário de Escola (Pref Piracicaba/SP)
2022
VUNESP
Prefeitura Municipal de Piracicaba (SP)
Auxiliar de Ação Educativa (Pref Piracicaba/SP)
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
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Leia a crônica de Ivan Angelo para responder a questão abaixo.

Cão reencontrado

Era muitas vezes com lágrimas nos olhos que se aprendia a dar valor à amizade, ao caráter e ao amor. Exemplos melodramáticos não faltavam e talvez por isso se tenham tornado marcantes.

Nunca pude me esquecer de um longo poema lido em aula pela professora, no segundo ano primário. Falava de um cão, feio mas dedicado, de que o dono procura se desfazer, afogando-o no mar. Lembro-me da forte emoção com que acompanhamos a leitura, e da minha atenção ao copiá-lo depois. Decorei-o inteiro, e declamava-o para os outros meninos, provavelmente quando havia por perto algum bolo de aniversário. Ao terminar a narrativa da tragédia de Veludo, havia olhos úmidos na pequena plateia. Esse era o nome do cão: Veludo. Magro, asqueroso, revoltante, imundo – dizia o poema.

Passaram-se os anos e deles restaram em minha memória os seis primeiros versos e uma lição de moral. Nem sabia quem era o autor. Então, numa conversa com um amigo amante de livros, ouvi dele a promessa: “Vou te mandar o poema”. Mandou mais do que isso: a cópia da folha de rosto do volume onde o poema, de Luiz Guimarães, aparecera na edição de 1886.

Começava assim: Eu tive um cão. Chamava-se Veludo: / Magro, asqueroso, revoltante, imundo; / Para dizer numa palavra tudo / Foi o mais feio cão que houve no mundo. (Alguém se lembra?) Recebi-o das mãos de um camarada / Na hora da partida. Exatamente aí terminavam as minhas lembranças.

Prossegue a história o narrador dizendo que o amigo tinha lágrimas nos olhos ao se separar do cão. E ao se despedir deseja que o cão console o novo dono. Mas aquele cão incomodava o novo dono. Deu-o à mulher de um carvoeiro. Respirou aliviado por não ter mais de dar ossos diariamente ao animal. Porém à noite alguém bateu à porta: Era Veludo, que entrou lambendo as mãos do narrador e farejando a casa satisfeito.

Para se livrar do cão, resolveu jogá-lo ao mar. Longe da costa, dentro do barco, ergueu o cão nos braços e o atirou às ondas.

Doloroso que fosse, o narrador deixou-o lá, voltou à terra, entrou em casa e notou que havia perdido, na operação, o cordão de prata com o retrato da mãe, uma relíquia que prezava tanto. Concluiu, com rancor, que a culpa era do cão.

Nesse momento, ouviu uivos à porta. Era Veludo! (Arrepiado, leitor?) O cão arfava e, antes de morrer, entendeu-se a seus pés e deixou cair da boca a medalha suspensa na corrente.

Aprendíamos dramaticamente os valores da vida.

(Coleção Melhores Crônicas – Ivan Angelo. Seleção de Humberto Werneck. Adaptado)

De acordo com as informações do texto, é correto afirmar que
A
o narrador do poema aceitou o cão por dever favores ao antigo dono, porém o aborrecia ter de gastar dinheiro com ossos para Veludo se alimentar.
B
o cronista era convidado para festas de aniversário porque sabia declamar, com mais teatralidade que os colegas, o poema que comovia a todos.
C
o cão, enxotado pela mulher do carvoeiro, retornou feliz à casa do dono, o narrador do poema, que acolheu a contragosto o animal.
D
as histórias em que havia sofrimento e drama eram, segundo o cronista, meios para ensinar valores morais, como amor e fidelidade, às crianças.
E
o novo dono, que duas vezes havia tentado se livrar do cão, demonstrou amargo arrependimento ao ver Veludo à sua porta trazendo a relíquia de família.