Leia atentamente o texto a seguir, escrito por Rachel de Queiroz, para responder a questão.
“Abro um pacote de correspondência atrasada, e na grande maioria dos que me escrevem encontro pessoas que me pedem a receita de ‘vencer’, ou me contam as suas esperanças de ‘ser alguém’. A fórmula é empregada por todos nestas mesmas palavras, e de Mato Grosso e do Amazonas, da quieta cidade mineira ou da pequena cidade grande de São Paulo, todos eles me dizem a mesma coisa: querem ser alguém. O que eles chamam ‘ser alguém’ é aparecer nos jornais, nas revistas, nas estações de rádio. E ante isso eu me encolho e não lhes digo nada, e eles muitas vezes se zangam e me traduzem o seu ressentimento em novas cartas. Ora, valha-me Deus, caríssimos! Como é que hei de responder? Já tenho respondido muito, aqui mesmo por esta coluna, mas não custa repetir, se vocês fazem questão. É que para mim, para nós, ser ‘alguém’, no sentido em que vocês pensam, é não ser coisa nenhuma. É um sacrifício, um fracasso, uma imolação. É ser apenas um nome impresso, uma cara escrachada, um jingle de rádio. Conformar-se o tal ‘alguém’ à figura que artificialmente ele ajudou o público a criar em torno de si, encher o molde do figurino que lhe traçaram, realizar perante a plateia a personalidade que o público deseja – e isso, naturalmente, às expensas da sua própria personalidade, dos seus próprios desejos e das suas próprias preferências e repugnâncias. Ser alguém é não ser ninguém, é ser um boneco, uma voz, uma assinatura. Só no anonimato e no silêncio é que se pode ser realmente alguém. Na paz e na decência da vida particular o homem entregue aos seus pensamentos é dono do mundo inteiro e na verdade então ele é alguém. Tudo que tem a seu redor é seu, pode usar e abusar dos seus sonhos, das suas palavras – do presente e do futuro”. (“Ser alguém”, de Rachel de Queiroz, com adaptações).
Considere o relato a seguir, de autoria do escritor Otto Lara Resende, para responder a questão.
“Como não sou muito novidadeiro, custei um pouco a aderir à secretária eletrônica. E até hoje não tenho computador, ou processador de texto, apesar de lidar bem com um teclado. Já experimentei e não me saí mal. Mas as mudanças vão ficando cada vez mais difíceis, com o passar do tempo. Não é só questão de idade. É também de temperamento. O comodista não quer mudar de hábitos. E resiste ao que é melhor, mais confortável, só porque é novo. Não, não é o meu caso. Assim que se tornou tecnicamente confiável, aderi à secretária eletrônica. Para quem não tem secretária de carne e osso e é o contínuo de si mesmo, como é o meu caso, a eletrônica é uma mão na roda. Já estou na terceira, não porque seja infiel, mas porque as duas primeiras me abandonaram. Enguiçaram e não houve jeito de obrigá-las a voltar ao trabalho. Aliás, a secretária eletrônica dá um bom rendimento cômico, de passagem. Mas há todo um tratado a escrever sobre essa maquininha. Ou sobre o que ela representa no nosso dia a dia cada vez mais cercado de equipamentos eletrodomésticos. Muita gente ainda se relaciona mal com a gravação. E xinga ou desliga. O cara custa conseguir a ligação e dá com uma gravação, aí fica uma fera”. (“Torto e engraçado”, de Otto Lara Resende, com adaptações).
Marque a alternativa que indica um adjetivo que poderia caracterizar a índole do autor do texto.