Questão
2011
BIO-RIO
Prefeitura Municipal de Teresópolis (RJ)
Professor de Língua Portuguesa (Pref Teresópolis/RJ)
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000193661
Além do Bastidor

Marina Colasanti

Começou com linha verde. Não sabia o que bordar, mas tinha certeza do verde, verde brilhante.

Capim. Foi isso que apareceu depois dos primeiros pontos. Um capim alto, com as pontas dobradas como se olhasse para alguma coisa.

Olha para as flores, pensou ela, e escolheu uma meada vermelha

Assim, aos poucos, sem risco, um jardim foi aparecendo no bastidor. Obedecia às suas mãos, obedecia ao seu próprio jeito, e surgia como se no orvalho da noite se fizesse a brotação.

Toda manhã a menina corria para o bastidor, olhava, sorria, e acrescentava mais um pássaro, uma abelha, um grilo escondido atrás de uma haste.

O sol brilhava no bordado da menina.

E era tão lindo o jardim que ela começou a gostar dele mais do que de qualquer outra coisa.

Foi no dia da árvore. A árvore estava pronta, parecia não faltar nada. Mas a menina sabia que tinha chegado a hora de acrescentar os frutos. Bordou uma fruta roxa, brilhante, como ela mesma nunca tinha visto. E outra, e outra, até a árvore ficar carregada, até a árvore ficar rica, e sua boca se encher do desejo daquela fruta nunca provada.

A menina não soube como aconteceu. Quando viu, já estava a cavalo do galho mais alto da árvore, catando as frutas e limpando o caldo que lhe escorria da boca.

Na certa tinha sido pela linha, pensou na hora de voltar para casa. Olhou, a última fruta ainda não estava pronta, tocou no ponto que acabava em fio. E lá estava ela, de volta na sua casa.

Agora que já tinha aprendido o caminho, todo dia a menina descia para o bordado. Escolhia primeiro aquilo que gostaria de ver, uma borboleta, um louva-deus. Bordava com cuidado, depois descia pela linha para as costas do inseto, e voava com ele, e pousava nas flores, e ria e brincava e deitava na grama.

O bordado já estava quase pronto. Pouco pano se via entre os fios coloridos. Breve, estaria terminado.

Faltava uma garça, pensou ela. E escolheu uma meada branca matizada de rosa. Teceu seus pontos com cuidado, sabendo, enquanto lançava a agulha, como seriam macias as penas e doce o bico. Depois desceu ao encontro da nova amiga.

Foi assim, de pé ao lado da garça, acariciando-lhe o pescoço, que a irmã mais velha a viu ao debruçar-se sobre o bastidor. Era só o que não estava bordado. E o risco era tão bonito, que a irmã pegou a agulha, a cesta de linhas, e começou a bordar.

Bordou os cabelos, e o vento não mexeu mais neles.

Bordou a saia, e as pregas se fixaram. Bordou as mãos, para sempre paradas no pescoço da garça. Quis bordar os pés mas estavam escondidos pela grama. Quis bordar o rosto mas estava escondido pela sombra. Então bordou a fita dos cabelos, arrematou o ponto, e com muito cuidado cortou a linha.

(COLASANTI, Marina. “Além do bastidor”. In: Uma idéia toda azul. 22ª ed. São Paulo: Global, 2003. p. 14-17)

Laura Sandroni afirma que “Uma idéia toda azul não é um livro apenas para crianças. Como os contos de Grimm ou Andersen, em suas versões integrais, tem intenções profundas que só serão apreendidas por adolescentes e adultos. Mas nem por isso a criança deve ser privada de sua leitura.” (Parecer 1 do PNBE - FUNDAÇÃO NACIONAL DO LIVRO INFANTIL E JUVENIL) Partindo dessa observação, é correto afirmar que:
A
fala de um mundo interior que permanece, fala de aspectos básicos para a formação da personalidade das crianças, não importa o passar dos tempos ou o aprimoramento da tecnologia.;
B
cria a partir do conhecido e usual conto de fadas, sem muitas novidades a acrescentar;
C
trata-se de um conto de terror, que deve ser evitado por crianças que se impressionam;
D
traz o debate eterno do amor e da união entre irmãos;
E
sua linguagem não flui de forma espontânea.