{"id":1804657,"date":"2026-08-31T08:32:06","date_gmt":"2026-08-31T11:32:06","guid":{"rendered":"https:\/\/concursos.estrategia.com\/portal\/?p=1804657"},"modified":"2026-08-31T08:32:09","modified_gmt":"2026-08-31T11:32:09","slug":"informativo-stj-898-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/concursos.estrategia.com\/portal\/informativo-stj-898-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ 898 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/concursos.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/stj-info-898.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_cP0uH2ov-R4\"><div id=\"lyte_cP0uH2ov-R4\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/cP0uH2ov-R4\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><button tabindex=\"0\" class=\"play\"><\/button><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/cP0uH2ov-R4\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/cP0uH2ov-R4\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"h-1-nbsp-nbsp-brumadinho-consumidor-por-equiparacao-e-prescricao\" class=\"wp-block-heading\">1.&nbsp;&nbsp; BRUMADINHO: CONSUMIDOR POR EQUIPARA\u00c7\u00c3O E PRESCRI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aplica-se o instituto do <strong>consumidor por equipara\u00e7\u00e3o (CDC, art. 17)<\/strong> \u00e0s a\u00e7\u00f5es indenizat\u00f3rias decorrentes do desastre ambiental de Brumadinho e, por consequ\u00eancia, <strong>o prazo prescricional de cinco anos do art. 27 do CDC<\/strong>, afastado o tri\u00eanio do art. 206, \u00a7 3\u00ba, V, do CC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.124.713-MG e REsp 2.124.717-MG, Rel. Min. Moura Ribeiro, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgados em 19\/8\/2026 (Tema 1280).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a barragem da VALE ruiu em Brumadinho, a lama n\u00e3o escolheu clientes: alcan\u00e7ou quem jamais comprara um grama de min\u00e9rio. Seu Osvaldo, morador atingido pela trag\u00e9dia, ajuizou a\u00e7\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o por danos morais, e a mineradora levantou a prescri\u00e7\u00e3o: rela\u00e7\u00e3o extracontratual, prazo de tr\u00eas anos do C\u00f3digo Civil, pretens\u00e3o morta. A v\u00edtima respondeu com o CDC: acidente de consumo equipara ao consumidor todas as v\u00edtimas do evento, e o prazo \u00e9 de cinco anos. Quem nunca contratou com a poluidora consome o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CDC, arts. 17 e 27<\/strong> <em>(equiparam-se aos consumidores todas as v\u00edtimas do evento danoso; a pretens\u00e3o \u00e0 repara\u00e7\u00e3o pelos danos causados por fato do produto ou do servi\u00e7o prescreve em cinco anos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 206, \u00a7 3\u00ba, V<\/strong> <em>(prescreve em tr\u00eas anos a pretens\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o civil, regra geral das rela\u00e7\u00f5es extracontratuais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A figura do <em>bystander<\/em> amplia a prote\u00e7\u00e3o consumerista a terceiros estranhos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de consumo vitimados pelo acidente; em atividades que geram risco socioambiental, como a minera\u00e7\u00e3o com barragens (Lei n. 12.334\/2010, alterada ap\u00f3s Mariana e Brumadinho), a equipara\u00e7\u00e3o independe de rela\u00e7\u00e3o base de consumo e at\u00e9 do enquadramento cl\u00e1ssico da empresa como fornecedora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A vulnerabilidade das popula\u00e7\u00f5es atingidas (econ\u00f4mica, t\u00e9cnica e jur\u00eddica) e a incerteza sobre o n\u00famero de vitimados e a extens\u00e3o dos danos reclamam o quinqu\u00eanio do art. 27 do CDC, em favor do acesso \u00e0 repara\u00e7\u00e3o integral (CF, art. 225; Lei n. 6.938\/1981, art. 14, \u00a7 1\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A tese da mineradora tinha l\u00f3gica civilista: sem contrato, sem consumo, <strong>a repara\u00e7\u00e3o seguiria a vala comum do ato il\u00edcito<\/strong> e o seu tri\u00eanio prescricional, vencido para boa parte das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Segunda Se\u00e7\u00e3o recusou a lente \u00fanica: a atividade miner\u00e1ria envolve concess\u00e3o estatal, mercado e um passivo de risco sobre ecossistemas e popula\u00e7\u00f5es vizinhas, e <strong>quem \u00e9 atingido pelo risco da atividade econ\u00f4mica \u00e9 v\u00edtima do evento<\/strong> na exata dic\u00e7\u00e3o do art. 17 do CDC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Restava o obst\u00e1culo dogm\u00e1tico: min\u00e9rio \u00e9 insumo, n\u00e3o bem de consumo, <strong>e a VALE n\u00e3o se encaixaria no figurino de fornecedora<\/strong> do art. 3\u00ba, o que romperia a premissa da rela\u00e7\u00e3o consumerista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O julgado deslocou o eixo do contrato para o dano: diante do potencial ofensivo do empreendimento, <strong>discuss\u00f5es sobre a destina\u00e7\u00e3o do produto s\u00e3o irrelevantes<\/strong>; o poluidor n\u00e3o colhe vantagem prescricional da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fornecedor, e as v\u00edtimas ganham o prazo mais largo para buscar a repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 pretens\u00e3o indenizat\u00f3ria de morador atingido por desastre ambiental decorrente de atividade miner\u00e1ria, sem v\u00ednculo contratual com a empresa poluidora:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) prescreve em tr\u00eas anos, regra do C\u00f3digo Civil para a repara\u00e7\u00e3o de danos extracontratuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) depende da comprova\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o base de consumo entre a v\u00edtima e a exploradora da atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) submete-se ao prazo de cinco anos do CDC, equiparada a v\u00edtima ao consumidor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) exige o enquadramento da mineradora como fornecedora de produtos ao mercado de consumo final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) sujeita-se ao prazo decenal geral, dada a natureza contratual do dever de seguran\u00e7a violado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A regra trienal da lei civil foi expressamente afastada: aplic\u00e1-la friamente beneficiaria o poluidor e estrangularia o acesso das v\u00edtimas \u00e0 repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A equipara\u00e7\u00e3o do art. 17 do CDC dispensa rela\u00e7\u00e3o base de consumo em atividades de potencial ofensivo socioambiental; basta ser vitimado pelo evento danoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. \u00c9 a tese do Tema 1280: incide o instituto do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o e, por arrasto, o prazo quinquenal do art. 27 do CDC para as a\u00e7\u00f5es ligadas ao desastre de Brumadinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Eventuais d\u00favidas sobre a condi\u00e7\u00e3o de fornecedora da empresa s\u00e3o irrelevantes diante do potencial danoso do empreendimento; o julgado afastou essa discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o se cogitou de prazo decenal nem de fundo contratual: a solu\u00e7\u00e3o veio do microssistema consumerista, com o quinqu\u00eanio pr\u00f3prio das pretens\u00f5es por acidente de consumo.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;Aplicabilidade do instituto jur\u00eddico do consumidor, por equipara\u00e7\u00e3o, \u00e0s a\u00e7\u00f5es indenizat\u00f3rias decorrentes do desastre ambiental ocorrido em Brumadinho, e consequente c\u00f4mputo do prazo prescricional de cinco anos previsto no artigo 27 do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia gira em torno da an\u00e1lise do instituto da prescri\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o por danos morais movida contra a VALE por v\u00edtimas do desastre ambiental ocorrido em Brumadinho &#8211; MG, em raz\u00e3o do exerc\u00edcio de sua atividade de minera\u00e7\u00e3o e consequente explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do min\u00e9rio ali existente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A celeuma consiste em definir (i) se o caso enquadra-se no art. 206, \u00a7 3\u00ba, V, do CC, que estabelece o prazo trienal para a pretens\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o por danos extracontratuais, ou (ii) se \u00e9 hip\u00f3tese de acidente de consumo, a atrair a figura do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o, prevista no art. 17 do CDC, e, consequentemente, a fixa\u00e7\u00e3o do prazo quinquenal previsto no art. 27 do mesmo C\u00f3digo. Para tanto, deve-se considerar qual a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que se formou entre a VALE e as v\u00edtimas do desastre ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A jurisprud\u00eancia do STJ j\u00e1 se posicionou em diversos julgados, aplicando a teoria finalista mitigada para admitir a incid\u00eancia do CDC, reconhecendo a presen\u00e7a da vulnerabilidade decorrente da hipossufici\u00eancia t\u00e9cnica, jur\u00eddica ou econ\u00f4mica da pessoa f\u00edsica\/jur\u00eddica, ainda que o produto ou servi\u00e7o n\u00e3o seja dirigido, especificamente, a ele, o destinat\u00e1rio final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No \u00e2mbito de an\u00e1lise do presente caso, se vislumbra a figura do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o ou <em>bystander<\/em> que visa ampliar o alcance da legisla\u00e7\u00e3o consumerista a terceiros que n\u00e3o mantiveram nenhuma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica com o fornecedor, mas que foram vitimados pelo acidente de consumo. Nesse sentido, o artigo 17 do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor estabelece que se equiparam aos consumidores todas as v\u00edtimas do evento. A inten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 clara: a prote\u00e7\u00e3o dos direitos daqueles terceiros alheios \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de consumo que s\u00e3o v\u00edtimas de um determinado evento danoso decorrente da atividade empresarial desenvolvida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que v\u00edtimas de acidentes ambientais podem ser enquadradas no conceito de consumidor por equipara\u00e7\u00e3o, pois s\u00e3o terceiros impactados por uma atividade econ\u00f4mica que ensejou danos ressarc\u00edveis. H\u00e1 v\u00e1rios precedentes da Terceira e da Quarta Turmas reconhecendo que os danos ambientais decorrentes de determinadas atividades empresariais imp\u00f5em a repara\u00e7\u00e3o integral de todos os vitimados, atraindo a incid\u00eancia do art. 17 do CDC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A relev\u00e2ncia da quest\u00e3o est\u00e1 em se definir se todo e qualquer dano ambiental pode atrair a hip\u00f3tese legal do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o ou se h\u00e1 necessidade de se investigar a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o de consumo preexistente ou, como denominado na doutrina, a rela\u00e7\u00e3o base de consumo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso de atividades econ\u00f4micas que, por si s\u00f3, oferecem riscos de impactos ambientais e, por essa raz\u00e3o, podem ocasionar viola\u00e7\u00f5es a direitos de pessoas que n\u00e3o guardaram nenhuma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica com tais empreendimentos, implicar\u00e1 reconhecer uma rela\u00e7\u00e3o de consumo por equipara\u00e7\u00e3o. E tal situa\u00e7\u00e3o independe de se estar presente a figura do fornecedor de servi\u00e7os\/produtos, pois o que se pretende tutelar \u00e9 a seguran\u00e7a dos terceiros que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s atividades potencialmente ofensivas do ponto de vista socioambiental, cuja preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser relegada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 ineg\u00e1vel que a atividade de minera\u00e7\u00e3o, por envolver diversas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas entre a empresa concession\u00e1ria, o Estado, os particulares e o meio ambiente, n\u00e3o pode ser analisada, apenas, a partir de uma lente civilista. O olhar hol\u00edstico \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale salientar que a Lei n. 12.334\/2010, que estabelece a Pol\u00edtica Nacional de Seguran\u00e7a de Barragens (PNSBa), aplic\u00e1vel a este caso, foi modificada pela Lei n. 14.066\/2020, justamente ap\u00f3s os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho e assentou novas defini\u00e7\u00f5es legais para atividades que envolvem a utiliza\u00e7\u00e3o de barragens e acumula\u00e7\u00e3o de res\u00edduos industriais, trazendo dois relevantes conceitos. A legisla\u00e7\u00e3o passou a reconhecer a potencialidade ofensiva do empreendimento, capaz de colocar em risco ecossistemas e popula\u00e7\u00f5es denominadas, normativamente, como popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Necess\u00e1rio, portanto, o realinhamento interpretativo do sistema normativo para ancorar a natureza multidimensional do dano ambiental e seus reflexos, a partir de mecanismos como o Processo Estrutural e a consagra\u00e7\u00e3o do Direito dos Desastres, contemplando valores jur\u00eddicos que harmonizam os interesses difusos, coletivos e individuais homog\u00eaneos, sem descuidar da tutela individualmente considerada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fica evidente que a complexidade das rela\u00e7\u00f5es que se estabeleceram entre a VALE e as v\u00edtimas do desastre ambiental de Brumadinho\/MG ultrapassa o \u00e2mbito da mera repara\u00e7\u00e3o civil, permeando circunst\u00e2ncias de grave relevo social e ambiental, o que indica a necessidade de um di\u00e1logo das fontes, ou seja, de uma interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gico-sistem\u00e1tica e teleol\u00f3gica dos diplomas normativos aplic\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na exist\u00eancia de um empreendimento potencialmente poluidor e capaz de ocasionar desastres ambientais, tal como ocorreu na presente hip\u00f3tese, afastam-se os crit\u00e9rios normativos que definem tradicionalmente os sujeitos de uma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica para abra\u00e7ar, amplamente, com a prote\u00e7\u00e3o legal, os interesses de terceiros vitimados pela atividade poluidora. Isso se traduz na necessidade de uma integra\u00e7\u00e3o entre a tutela dos interesses difusos do meio ambiente e a prote\u00e7\u00e3o daqueles que sofreram diretamente os impactos da a\u00e7\u00e3o poluidora, em manifesta posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade econ\u00f4mica, t\u00e9cnica e jur\u00eddica, enquadrando-se no conceito de hipossufici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vulnerabilidade se relaciona tanto com os aspectos da atividade econ\u00f4mica desempenhada e seus poss\u00edveis reflexos no meio ambiente em que se situa o empreendimento, como tamb\u00e9m nos desdobramentos e influ\u00eancias que envolvem os grupos sociais presentes no local do empreendimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, tratando-se de desastre ambiental, a conduta do poluidor-pagador colocou em risco a integridade do autor e de terceiros n\u00e3o correlacionados com o empreendimento, o que atrai o instituto do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o, independentemente de estar ou n\u00e3o devidamente caracterizada uma rela\u00e7\u00e3o base de consumo, evidenciando-se, no caso, uma rela\u00e7\u00e3o de consumo por equipara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que concerne ao prazo prescricional aplic\u00e1vel ao caso, a prescri\u00e7\u00e3o de pretens\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o civil no \u00e2mbito restrito a partes bem definidas e regula\u00e7\u00e3o prescricional trienal, estabelecida pela legisla\u00e7\u00e3o civil para a repara\u00e7\u00e3o por danos extracontratuais (art. 206, \u00a7 3\u00ba, V, do CC) n\u00e3o se mostra adequada para o presente caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os conflitos apresentados reclamam a tutela de interesses heterog\u00eaneos, com partes ainda n\u00e3o delimitadas &#8211; j\u00e1 que nem sequer se tem certeza da quantidade de pessoas que foram vitimadas pelo desastre ambiental, tampouco a extens\u00e3o do dano &#8211; sendo relevante a apura\u00e7\u00e3o de seus reflexos na \u00f3rbita de direitos de cada envolvido, a exigir um rigor t\u00e9cnico de grande complexidade e amplitude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, a incid\u00eancia do art. 17 do CDC para se considerar consumidor por equipara\u00e7\u00e3o todas as v\u00edtimas do desastre ambiental e, consequentemente, do seu art. 27, que estabelece o prazo quinquenal para a pretens\u00e3o reparat\u00f3ria, \u00e9 medida que garante \u00e0s v\u00edtimas a facilita\u00e7\u00e3o na defesa de seus interesses em prol da concreta repara\u00e7\u00e3o dos danos sofridos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ressalte-se que as eventuais diverg\u00eancias quanto ao enquadramento da VALE no conceito de fornecedor de produtos e servi\u00e7os, previsto no art. 3\u00ba, do CDC, n\u00e3o podem conduzir ao afastamento da prote\u00e7\u00e3o legal. A an\u00e1lise sobre a natureza da atividade miner\u00e1ria e sua destina\u00e7\u00e3o a terceiros que, em tese, poderia conduzir ao entendimento de que n\u00e3o seriam consumidores finais e, portanto, afastar a VALE da cl\u00e1ssica defini\u00e7\u00e3o legal de fornecedor, j\u00e1 que os min\u00e9rios seriam insumos e n\u00e3o de bens de consumo propriamente ditos, s\u00e3o irrelevantes diante do potencial danoso do desastroso empreendimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se mostra razo\u00e1vel que o poluidor, pelo simples fato de n\u00e3o se enquadrar no conceito de fornecedor, seja beneficiado com a aplica\u00e7\u00e3o fria da lei civil, restringindo o tempo para o acesso dos ofendidos \u00e0 busca de uma repara\u00e7\u00e3o civil decorrente do lament\u00e1vel desastre ambiental. O instituto do consumidor por equipara\u00e7\u00e3o, previsto no art. 17 do CDC, permitir\u00e1, portanto, que as pessoas impactadas pelos desastres ambientais decorrentes de atividades potencialmente ofensivas a pessoas e ao meio ambiente tenham maiores possibilidades para buscar a efetiva repara\u00e7\u00e3o do dano sofrido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tal entendimento prestigia a tutela do meio ambiente, bem que pertence a todos e deve ser preservado para as presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es, nos termos do art. 225 da CF\/1988 e que, nos termos do art. 14, \u00a7 1\u00ba, da Lei n. 6.938\/1981 imp\u00f5e ao poluidor, independentemente da exist\u00eancia de culpa, a indeniza\u00e7\u00e3o ou repara\u00e7\u00e3o dos danos causados ao meio ambiente e a terceiros afetados por sua atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, assegura que as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis pela atividade poluidora tenham maior chance de promover as demandas indenizat\u00f3rias cab\u00edveis, pelo alargamento do prazo prescricional trazido no art. 27 do CDC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1280\/STJ: &#8220;\u00c9 aplic\u00e1vel o instituto jur\u00eddico do consumidor, por equipara\u00e7\u00e3o, \u00e0s a\u00e7\u00f5es indenizat\u00f3rias decorrentes do desastre ambiental ocorrido em Brumadinho e, consequentemente, o c\u00f4mputo do prazo prescricional de cinco anos previsto no artigo 27 do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-2-nbsp-processo-seletivo-e-limite-de-vagas-na-cooperativa-medica\" class=\"wp-block-heading\">2.&nbsp; PROCESSO SELETIVO E LIMITE DE VAGAS NA COOPERATIVA M\u00c9DICA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas cooperativas de trabalho m\u00e9dico <strong>\u00e9 v\u00e1lida a previs\u00e3o estatut\u00e1ria de processo seletivo p\u00fablico, impessoal e objetivo<\/strong> para a admiss\u00e3o de novos cooperados, assim como <strong>a limita\u00e7\u00e3o do n\u00famero de vagas fundada em estudos t\u00e9cnicos<\/strong> sobre mercado e equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.033.484-SP e REsp 2.033.992-SP, Rel. Min. Raul Ara\u00fajo, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgados em 19\/8\/2026 (Tema 1212).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Josefina, m\u00e9dica rec\u00e9m-especializada, quis ingressar na UnosMedi, a cooperativa de trabalho m\u00e9dico da sua cidade. Mas seu acesso foi negado com base no estatuto: aprova\u00e7\u00e3o em processo seletivo com provas de \u00e9tica profissional, cooperativismo e gest\u00e3o em sa\u00fade, e um edital com <em>n\u00famero fechado de vagas<\/em>, calculado a partir de estudos sobre o mercado da especialidade. Ela invocou o princ\u00edpio da porta aberta: cooperativa \u00e9 sociedade de livre ades\u00e3o, e barreira de entrada seria reserva de mercado disfar\u00e7ada. A porta da cooperativa comporta catraca?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 5.764\/1971, arts. 4\u00ba, I, e 29<\/strong> <em>(a ades\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1ria e aberta, com n\u00famero ilimitado de associados, salvo impossibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, e condicionada \u00e0s normas legais e estatut\u00e1rias).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O princ\u00edpio da porta aberta, decorrente da livre ades\u00e3o, n\u00e3o tem car\u00e1ter absoluto nas cooperativas de trabalho m\u00e9dico: compatibiliza-se com a possibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os e com a viabilidade estrutural e econ\u00f4mico-financeira da entidade, que tamb\u00e9m opera planos de sa\u00fade e responde pelos atos dos cooperados (CDC, art. 14).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd V\u00e1lido o processo seletivo p\u00fablico, impessoal e objetivo, com conte\u00fados pertinentes \u00e0 \u00e9tica profissional, ao cooperativismo e \u00e0 gest\u00e3o em sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd V\u00e1lida a limita\u00e7\u00e3o de vagas quando lastreada em estudos t\u00e9cnicos sobre o mercado da especialidade e o equil\u00edbrio financeiro; a recusa de novos associados \u00e9 admiss\u00edvel quando par\u00e2metros objetivos demonstram atingida a capacidade m\u00e1xima de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A bandeira da recusa era hist\u00f3rica: o cooperativismo nasceu da inclus\u00e3o, e <strong>cada barreira de entrada cheira a cartel corporativo<\/strong>, reservando mercado aos que chegaram primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Segunda Se\u00e7\u00e3o releu a pr\u00f3pria lei das cooperativas: a ades\u00e3o \u00e9 livre, <strong>mas condicionada \u00e0s normas estatut\u00e1rias e \u00e0 possibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os<\/strong>, ressalva expressa do art. 4\u00ba, I, que o discurso da porta aberta costuma esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Ainda restava o risco do arb\u00edtrio: sem freios, <strong>o estatuto poderia virar filtro de conveni\u00eancia dos dirigentes<\/strong>, escolhendo a dedo quem entra e quem fica de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Os freios s\u00e3o o n\u00facleo da tese: sele\u00e7\u00e3o p\u00fablica, impessoal e objetiva, e vagas limitadas <strong>somente com justificativa t\u00e9cnica verific\u00e1vel<\/strong>; assim se conciliam a livre ades\u00e3o, a qualidade assistencial e a sustentabilidade de quem responde solidariamente pelos servi\u00e7os prestados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No tocante \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estatut\u00e1rias de ingresso em cooperativa de trabalho m\u00e9dico:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) a livre ades\u00e3o veda a exig\u00eancia de processo seletivo, caracter\u00edstica essencial do regime cooperativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) o n\u00famero de associados \u00e9 ilimitado por for\u00e7a de lei, inv\u00e1lida a fixa\u00e7\u00e3o de vagas em edital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) depende a recusa de novos cooperados de delibera\u00e7\u00e3o assemblear un\u00e2nime dos associados atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) restringe-se a sele\u00e7\u00e3o admiss\u00edvel aos m\u00e9dicos sem v\u00ednculo com operadoras concorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) s\u00e3o v\u00e1lidos o processo seletivo impessoal e objetivo e o limite de vagas amparado em estudos t\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O princ\u00edpio da porta aberta n\u00e3o \u00e9 absoluto: a pr\u00f3pria Lei n. 5.764\/1971 condiciona a ades\u00e3o \u00e0s normas estatut\u00e1rias e ressalva a impossibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O art. 4\u00ba, I, admite a limita\u00e7\u00e3o diante da impossibilidade t\u00e9cnica; o edital pode fixar vagas quando estudos sobre o mercado e o equil\u00edbrio financeiro o justificarem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O repetitivo n\u00e3o erigiu delibera\u00e7\u00e3o un\u00e2nime em requisito: o controle se faz pela objetividade dos crit\u00e9rios e pela justificativa t\u00e9cnica, n\u00e3o pelo qu\u00f3rum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Crit\u00e9rio fundado na concorr\u00eancia seria discriminat\u00f3rio; o que se valida s\u00e3o conte\u00fados pertinentes \u00e0 \u00e9tica, ao cooperativismo e \u00e0 gest\u00e3o em sa\u00fade, aferidos impessoalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. \u00c9 a tese do Tema 1212: sele\u00e7\u00e3o p\u00fablica, impessoal e objetiva, e teto de vagas lastreado em an\u00e1lises t\u00e9cnicas de mercado e de sustentabilidade financeira.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-0\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;a) licitude da exig\u00eancia, em estatuto social de cooperativa de trabalho m\u00e9dico, de aprova\u00e7\u00e3o em processo seletivo como requisito para ingresso de novos cooperados; e b) possibilidade de o edital do processo seletivo prever limita\u00e7\u00e3o de n\u00famero de vagas.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exig\u00eancia de processo seletivo para admiss\u00e3o de novos cooperados, quando prevista no estatuto social e estruturada com crit\u00e9rios objetivos e impessoais, \u00e9 compat\u00edvel com o sistema jur\u00eddico das cooperativas e n\u00e3o configura, por si, restri\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria ou discriminat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpreta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos arts. 4\u00ba, I, e 29 da Lei n. 5.764\/1971 conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que a ades\u00e3o \u00e9 livre, por\u00e9m condicionada ao atendimento das normas legais e estatut\u00e1rias, al\u00e9m de sujeita \u00e0 ressalva da impossibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, legitimando instrumentos de sele\u00e7\u00e3o impessoais e objetivos concebidos para aferir a capacidade organizacional e operacional da cooperativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse diapas\u00e3o, o princ\u00edpio da porta aberta, decorrente da livre ades\u00e3o, n\u00e3o tem car\u00e1ter absoluto nas cooperativas de trabalho m\u00e9dico. A interpreta\u00e7\u00e3o adequada exige compatibiliz\u00e1-lo com a possibilidade t\u00e9cnica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e com a viabilidade estrutural e econ\u00f4mico-financeira da entidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A necessidade de proteger a qualidade assistencial e a sustentabilidade t\u00e9cnico-financeira das cooperativas m\u00e9dicas, que tamb\u00e9m operam planos de sa\u00fade e podem ser responsabilizadas solidariamente por atos de seus cooperados, refor\u00e7a a validade de crit\u00e9rios de ingresso pautados por par\u00e2metros verific\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o art. 14 do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor estabelece a responsabilidade do fornecedor independentemente de culpa pelos danos decorrentes de defeitos na presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, \u00e9 legal a previs\u00e3o, em estatuto social, de processo seletivo p\u00fablico, impessoal e objetivo para admiss\u00e3o de novos m\u00e9dicos, com conte\u00fados pertinentes \u00e0 \u00e9tica profissional, ao cooperativismo e \u00e0 gest\u00e3o em sa\u00fade, como forma de assegurar que o ingresso observe padr\u00f5es t\u00e9cnicos e organizacionais indispens\u00e1veis ao adequado funcionamento da cooperativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m se revela adequada a limita\u00e7\u00e3o, de forma impessoal e baseada em crit\u00e9rios objetivos, do n\u00famero de vagas ofertadas no processo seletivo. Essa limita\u00e7\u00e3o deve refletir estudos t\u00e9cnicos sobre o mercado da especialidade e o equil\u00edbrio financeiro da sociedade cooperativa, funcionando como instrumento de governan\u00e7a para manter a qualidade assistencial, garantir a sustentabilidade e evitar sobrecarga operacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a recusa de novos associados \u00e9 admiss\u00edvel quando demonstrado, por par\u00e2metros objetivos e veross\u00edmeis, que a cooperativa atingiu sua capacidade m\u00e1xima de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, de modo a comprometer o cumprimento de sua finalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, \u00e9 un\u00edssona a orienta\u00e7\u00e3o das Turmas que comp\u00f5em a Segunda Se\u00e7\u00e3o no sentido de que a exig\u00eancia estatut\u00e1ria de processo seletivo &#8211; com conte\u00fados pertinentes \u00e0 \u00e9tica m\u00e9dica, ao cooperativismo e \u00e0 gest\u00e3o em sa\u00fade &#8211; e a limita\u00e7\u00e3o objetiva de vagas, com justificativa t\u00e9cnica, s\u00e3o meios leg\u00edtimos para compatibilizar o princ\u00edpio da porta aberta com a impossibilidade t\u00e9cnica e com a preserva\u00e7\u00e3o da capacidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0 vista desse quadro normativo e jurisprudencial, reconhece-se a licitude da previs\u00e3o estatut\u00e1ria de pr\u00e9via aprova\u00e7\u00e3o em processo seletivo p\u00fablico, impessoal e objetivo, bem como da limita\u00e7\u00e3o do n\u00famero de vagas conforme mercado e equil\u00edbrio financeiro, desde que respaldadas por crit\u00e9rios verific\u00e1veis e estudos t\u00e9cnicos. Tais exig\u00eancias n\u00e3o suprimem a livre ades\u00e3o, mas a conformam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estatut\u00e1rias e \u00e0 capacidade t\u00e9cnica da cooperativa, assegurando qualidade assistencial, sustentabilidade e isonomia, sem promover restri\u00e7\u00f5es abusivas ou discriminat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1212\/STJ: &#8220;Nas cooperativas de trabalho m\u00e9dico \u00e9 v\u00e1lida a previs\u00e3o estatut\u00e1ria de processo seletivo p\u00fablico, impessoal e objetivo para admiss\u00e3o de novos cooperados, assim como a limita\u00e7\u00e3o do n\u00famero de vagas fundada em estudos t\u00e9cnicos sobre mercado e equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-3-pronuncia-inquerito-e-testemunho-de-ouvir-dizer\" class=\"wp-block-heading\">3. PRON\u00daNCIA, INQU\u00c9RITO E TESTEMUNHO DE OUVIR DIZER<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pron\u00fancia <strong>N\u00c3O pode se basear exclusivamente em elementos informativos do inqu\u00e9rito<\/strong> (ressalvadas as provas cautelares, n\u00e3o repet\u00edveis e antecipadas do art. 155 do CPP), e <strong>o testemunho indireto, mesmo colhido em ju\u00edzo, n\u00e3o basta por si<\/strong> para o <em>standard<\/em> probat\u00f3rio da decis\u00e3o. Contudo, em contextos de intimida\u00e7\u00e3o da prova, o relato indireto qualificado pode ganhar relevo, sob controle judicial estrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.048.687-BA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 12\/8\/2026 (Tema 1260).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademar foi pronunciado por homic\u00eddio com um acervo que se resumia ao inqu\u00e9rito policial: em ju\u00edzo, nenhuma testemunha presencial, s\u00f3 relatos de quem &#8220;ouviu dizer&#8221; na vizinhan\u00e7a que ele seria o autor. A acusa\u00e7\u00e3o defendeu a f\u00f3rmula cl\u00e1ssica do in <em>dubio pro societate<\/em>: d\u00favida, nessa fase, joga a favor do j\u00fari. Boato repetido vira ind\u00edcio suficiente de autoria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 155, <em>caput<\/em><\/strong> <em>(o juiz forma sua convic\u00e7\u00e3o pela livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova produzida em contradit\u00f3rio judicial, n\u00e3o podendo fundamentar sua decis\u00e3o exclusivamente nos elementos informativos da investiga\u00e7\u00e3o, ressalvadas as provas cautelares, n\u00e3o repet\u00edveis e antecipadas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A pron\u00fancia exige ind\u00edcios s\u00f3lidos colhidos sob contradit\u00f3rio: conjecturas n\u00e3o sustentam o envio do r\u00e9u ao j\u00fari, e conferir juridicidade maior a atos investigativos administrativos que ao processo inverteria as garantias do <em>judicium accusationis<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O testemunho de ouvir dizer (<em>hearsay<\/em>) \u00e9 l\u00edcito, mas de confiabilidade reduzida: sem indica\u00e7\u00e3o da fonte direta e sem corrobora\u00e7\u00e3o m\u00ednima, n\u00e3o alcan\u00e7a, isolado, o patamar probat\u00f3rio da pron\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Exce\u00e7\u00e3o calibrada: em cen\u00e1rios objetivamente demonstrados de intimida\u00e7\u00e3o da prova, criminalidade organizada ou silenciamento de v\u00edtimas e testemunhas, o relato indireto qualificado pode assumir maior peso, com controle judicial estrito e respeito ao contradit\u00f3rio e \u00e0 ampla defesa (ver: AgRg no AREsp 2.937.604-MG).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O argumento acusat\u00f3rio era o de sempre: a pron\u00fancia \u00e9 mero ju\u00edzo de admissibilidade, <strong>e o veredicto sobre a prova pertence aos jurados<\/strong>, juiz natural dos crimes dolosos contra a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Terceira Se\u00e7\u00e3o recolocou o filtro no lugar: mandar algu\u00e9m ao j\u00fari \u00e9 decis\u00e3o grave, <strong>e a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia acompanha todas as fases do processo<\/strong>; sem lastro produzido em contradit\u00f3rio, a admissibilidade vira carimbo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Quanto ao ouvir dizer, pesava a realidade das comarcas: em crimes de sangue, <strong>testemunha presencial silencia por medo<\/strong>, e exigir prova direta premiaria a intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O repetitivo respondeu com grada\u00e7\u00e3o: o relato de segunda m\u00e3o vale menos porque a hist\u00f3ria muda de boca em boca e escapa da refuta\u00e7\u00e3o eficaz; mas, <strong>demonstrada objetivamente a irrepetibilidade ou o silenciamento, o testemunho indireto qualificado ganha relevo<\/strong>, desde que o juiz o submeta a escrut\u00ednio estrito, jamais dissociado das garantias defensivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o lastro probat\u00f3rio exigido para a decis\u00e3o de pron\u00fancia no rito do Tribunal do J\u00fari:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) elementos do inqu\u00e9rito bastam, pois a fase \u00e9 regida pelo ju\u00edzo de mera admissibilidade da acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) o testemunho indireto colhido em ju\u00edzo \u00e9 suficiente, convalidado pelo contradit\u00f3rio da instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) a pron\u00fancia exige prova direta e presencial do fato, banido o relato de ouvir dizer do rito do j\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) a d\u00favida resolve-se em favor da sociedade, dispensado padr\u00e3o probat\u00f3rio m\u00ednimo nessa etapa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) n\u00e3o bastam, isoladamente, os elementos do inqu\u00e9rito nem o testemunho de ouvir dizer, ainda que judicializado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A pron\u00fancia fundada exclusivamente em elementos informativos viola o art. 155 do CPP, ressalvadas as provas cautelares, n\u00e3o repet\u00edveis e antecipadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Mesmo produzido em ju\u00edzo, o relato de segunda m\u00e3o n\u00e3o atinge, por si, o <em>standard<\/em> probat\u00f3rio da pron\u00fancia: sem fonte direta identificada e corrobora\u00e7\u00e3o m\u00ednima, sua confiabilidade \u00e9 reduzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O testemunho indireto \u00e9 prova l\u00edcita e admiss\u00edvel; em contextos de intimida\u00e7\u00e3o objetivamente demonstrados, pode at\u00e9 ganhar relevo qualificado, sob controle judicial estrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O repetitivo rejeitou a l\u00f3gica do carimbo: conjecturas n\u00e3o sustentam a pron\u00fancia, e a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia opera em todas as fases do processo penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. \u00c9 a s\u00edntese das teses do Tema 1260: nem o inqu\u00e9rito isolado, nem o ouvir dizer solit\u00e1rio, ainda que colhido em contradit\u00f3rio, autorizam o envio do r\u00e9u ao j\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-1\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos consiste em definir: a) se, nos termos do art. 155 do CPP, a pron\u00fancia n\u00e3o pode se fundamentar exclusivamente em elementos colhidos durante o inqu\u00e9rito policial; e b) se o testemunho indireto, ainda que colhido em ju\u00edzo, n\u00e3o constitui, isoladamente, meio de prova id\u00f4neo para a pron\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A decis\u00e3o de pron\u00fancia deve ser embasada em ind\u00edcios s\u00f3lidos e consistentes, respeitando os direitos e garantias fundamentais do acusado, especialmente o princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, que permanece aplic\u00e1vel durante todas as fases do processo penal. A aus\u00eancia de provas consistentes produzidas sob o contradit\u00f3rio invalida qualquer decis\u00e3o desfavor\u00e1vel ao r\u00e9u, seja para o condenar ou, nos crimes dolosos contra a vida, para o pronunciar e o submeter a julgamento pelo Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, conjecturas sobre o envolvimento do acusado no crime n\u00e3o s\u00e3o suficientes para justificar a pron\u00fancia. \u00c9 imprescind\u00edvel que as provas apresentadas ofere\u00e7am suporte s\u00f3lido e convincente para a hip\u00f3tese acusat\u00f3ria, garantindo, assim, que a decis\u00e3o de submeter o r\u00e9u ao julgamento pelo Tribunal do J\u00fari seja fundamentada em elementos concretos, respeitando os princ\u00edpios da legalidade, da ampla defesa e do contradit\u00f3rio, essenciais para a preserva\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da imparcialidade no processo penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, n\u00e3o se pode admitir que o r\u00e9u seja pronunciado com fundamento exclusivamente em elementos informativos colhidos na fase inquisitorial, sem qualquer lastro probat\u00f3rio colhido na fase do <em>judicium accusationis<\/em> do Tribunal do J\u00fari. Com efeito, entender de modo diverso implica conferir maior juridicidade a atos investigativos de cunho administrativo e desprovidos das garantias do devido processo legal, em detrimento do processo penal, no qual vigoram princ\u00edpios democr\u00e1ticos e garantias fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda sobre as provas v\u00e1lidas para a pron\u00fancia do r\u00e9u, \u00e9 importante destacar que, em que pese a aus\u00eancia, no ordenamento jur\u00eddico p\u00e1trio, de impedimento legal ao testemunho indireto (de &#8220;ouvir dizer&#8221; ou <em>hearsay<\/em> rule), o grau de confiabilidade desse tipo de depoimento, sem a indica\u00e7\u00e3o da fonte direta da informa\u00e7\u00e3o trazida pela testemunha e n\u00e3o corroborado minimamente por outros elementos, n\u00e3o \u00e9 o mesmo daquele prestado pela testemunha que dep\u00f5e pelo que sabe per proprium sensum et non <em>per se<\/em>nsum alterius, na medida em que os relatos podem se alterar quando passam de boca a boca, impedindo que o acusado refute, com efic\u00e1cia, as imputa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por fim, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a excepcionaliza a possibilidade do testemunho indireto no caso das provas n\u00e3o repet\u00edveis ou quando se verifica um temor concreto de repres\u00e1lias pelo comparecimento em ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixam-se as seguintes teses para o Tema 1260\/STJ:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. A pron\u00fancia n\u00e3o pode se basear, exclusivamente, em elementos informativos do inqu\u00e9rito, ressalvadas as exce\u00e7\u00f5es contidas na parte final do 155, <em>caput<\/em>, do CPP (provas cautelares, n\u00e3o repet\u00edveis e antecipadas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. O testemunho indireto ou de ouvir dizer \u00e9 prova l\u00edcita e admiss\u00edvel no ordenamento jur\u00eddico brasileiro, mas, mesmo se produzido em ju\u00edzo, n\u00e3o \u00e9 suficiente, por si s\u00f3, para atingir o <em>standard<\/em> probat\u00f3rio exigido para a decis\u00e3o de pron\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. Em contextos de intimida\u00e7\u00e3o da prova, criminalidade organizada, fac\u00e7\u00f5es criminosas, silenciamento imposto \u00e0 v\u00edtima ou \u00e0 testemunha e outras hip\u00f3teses objetivamente demonstradas de irrepetibilidade ou dificuldade substancial de produ\u00e7\u00e3o da prova direta, o testemunho indireto qualificado poder\u00e1 assumir maior relevo probat\u00f3rio, desde que submetido a controle judicial estrito e n\u00e3o dissociado das garantias do contradit\u00f3rio e da ampla defesa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-4-sentenca-penal-absolutoria-estrangeira-e-homologacao\" class=\"wp-block-heading\">4. SENTEN\u00c7A PENAL ABSOLUT\u00d3RIA ESTRANGEIRA E HOMOLOGA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00c3O \u00e9 poss\u00edvel homologar senten\u00e7a penal absolut\u00f3ria estrangeira para extinguir a punibilidade no Brasil<\/strong>: a legisla\u00e7\u00e3o admite a homologa\u00e7\u00e3o apenas para execu\u00e7\u00e3o de pena condenat\u00f3ria, repara\u00e7\u00e3o civil ou medida de seguran\u00e7a, <strong>inexistindo previs\u00e3o legal para o reconhecimento da absolvi\u00e7\u00e3o<\/strong> proferida por autoridade jurisdicional estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg na HDE 13.803-EX, Rel. Min. Herman Benjamin, Corte Especial, por unanimidade, julgado em 19\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Absolvido pelo Tribunal de Assise de Verona, na It\u00e1lia, Geremias quis dar ao veredicto italiano for\u00e7a de escudo no Brasil: requereu a homologa\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a estrangeira para que ela extinguisse a punibilidade e prevalecesse sobre eventual condena\u00e7\u00e3o futura por aqui. A Corte Especial examinou o pedido \u00e0 luz do art. 9\u00ba do C\u00f3digo Penal e da Lei de Migra\u00e7\u00e3o. Absolvi\u00e7\u00e3o de fora tranca processo de dentro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 9\u00ba<\/strong> <em>(a senten\u00e7a estrangeira pode ser homologada para obrigar o condenado \u00e0 repara\u00e7\u00e3o do dano e a outros efeitos civis, e para sujeit\u00e1-lo a medida de seguran\u00e7a).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 13.445\/2017 (Lei de Migra\u00e7\u00e3o)<\/strong> <em>(instituiu a transfer\u00eancia de execu\u00e7\u00e3o da pena, terceira hip\u00f3tese de reconhecimento de pronunciamento penal estrangeiro no pa\u00eds).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Fora do trio legal (repara\u00e7\u00e3o civil, medida de seguran\u00e7a e execu\u00e7\u00e3o de pena), falta respaldo normativo \u00e0 homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7as penais estrangeiras; a absolut\u00f3ria n\u00e3o gera, por essa via, extin\u00e7\u00e3o da punibilidade no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O requerente apelava \u00e0 coer\u00eancia internacional: processado e absolvido no exterior pelos mesmos fatos, <strong>ser julgado de novo soaria como dupla persecu\u00e7\u00e3o<\/strong>, em atrito com o <em>ne bis in idem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Corte Especial ficou no terreno da legalidade estrita: a homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a estrangeira \u00e9 ato de deliba\u00e7\u00e3o com hip\u00f3teses tipificadas, <strong>e o rol legal n\u00e3o contempla o reconhecimento de absolvi\u00e7\u00f5es<\/strong> para efeitos penais internos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Poderia parecer incongruente aceitar do estrangeiro a condena\u00e7\u00e3o <strong>e recusar justamente o provimento mais favor\u00e1vel ao acusado<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A assimetria \u00e9 do sistema, n\u00e3o do julgado: os efeitos da senten\u00e7a alien\u00edgena no Brasil dependem de previs\u00e3o expressa, e o legislador escolheu tr\u00eas finalidades espec\u00edficas. <strong>Alargar o rol por analogia caberia ao Congresso, n\u00e3o \u00e0 via homologat\u00f3ria<\/strong>; a relev\u00e2ncia da absolvi\u00e7\u00e3o estrangeira, se houver, ser\u00e1 aferida no pr\u00f3prio processo penal brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a penal estrangeira no Brasil:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) admite-se para repara\u00e7\u00e3o civil, medida de seguran\u00e7a e execu\u00e7\u00e3o de pena, sem alcan\u00e7ar a absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) restringe-se \u00e0 finalidade de repara\u00e7\u00e3o civil do dano causado pelo delito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) abrange o veredicto que absolve, cujo reconhecimento extingue a punibilidade perante a Justi\u00e7a brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) depende de tratado bilateral espec\u00edfico entre o Brasil e o Estado prolator da decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) tornou-se dispens\u00e1vel ap\u00f3s a Lei de Migra\u00e7\u00e3o, que atribuiu efic\u00e1cia autom\u00e1tica aos julgados estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. Foi o que assentou a Corte Especial na HDE 13.803: o trio legal esgota as hip\u00f3teses de homologa\u00e7\u00e3o de pronunciamentos penais estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Al\u00e9m dos efeitos civis, o art. 9\u00ba do CP contempla a medida de seguran\u00e7a, e a Lei de Migra\u00e7\u00e3o acrescentou a transfer\u00eancia de execu\u00e7\u00e3o da pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A pretens\u00e3o de usar a absolvi\u00e7\u00e3o estrangeira como causa extintiva da punibilidade foi rejeitada por absoluta aus\u00eancia de respaldo normativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A quest\u00e3o se resolveu pela moldura legal interna das hip\u00f3teses homolog\u00e1veis, n\u00e3o pela exist\u00eancia de tratado com o Estado de origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A Lei de Migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o automatizou efic\u00e1cia alguma: criou uma hip\u00f3tese adicional de reconhecimento, sempre dependente do ju\u00edzo de deliba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-2\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia tem origem em pedido de homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a estrangeira criminal absolut\u00f3ria proferida pelo Tribunal de Assise de Verona, It\u00e1lia, para que o t\u00edtulo alien\u00edgena irradie efeitos jur\u00eddicos no Brasil e, assim, possa prevalecer sobre eventual condena\u00e7\u00e3o aqui proferida em momento posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso posto, tem-se que o art. 9\u00ba do C\u00f3digo Penal prev\u00ea apenas duas situa\u00e7\u00f5es em que pronunciamentos penais estrangeiros poder\u00e3o ser reconhecidos para gerar consequ\u00eancias jur\u00eddicas no Brasil depois da devida homologa\u00e7\u00e3o: compelir o condenado a reparar civilmente o preju\u00edzo e submet\u00ea-lo \u00e0 medida de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ressalta-se que a Lei de Migra\u00e7\u00e3o (Lei n. 13.445\/2017) instituiu uma terceira hip\u00f3tese de reconhecimento de senten\u00e7a penal estrangeira no Pa\u00eds, qual seja, o mecanismo de transfer\u00eancia de execu\u00e7\u00e3o da pena, a fim de que a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 pena privativa de liberdade seja executada contra pessoas que se encontrem fora do territ\u00f3rio do Estado condenante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fora dessas hip\u00f3teses, o pleito de homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7as penais estrangeiras n\u00e3o pode ser acolhido por absoluta aus\u00eancia de respaldo normativo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-5-rancho-de-pesca-em-app-e-o-conceito-de-ecoturismo\" class=\"wp-block-heading\">5. RANCHO DE PESCA EM APP E O CONCEITO DE ECOTURISMO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edifica\u00e7\u00e3o de rancho de pesca com destina\u00e7\u00e3o exclusiva de lazer <strong>N\u00c3O se enquadra na exce\u00e7\u00e3o do art. 61-A, \u00a7 12, do C\u00f3digo Florestal<\/strong> (atividades &#8220;de ecoturismo&#8221; e &#8220;de turismo rural&#8221;), que autoriza a perman\u00eancia de <strong>edifica\u00e7\u00f5es consolidadas em \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente at\u00e9 22\/7\/2008<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt no AREsp 2.749.205-MS, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 12\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 beira do rio, em plena \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente, o rancho de pesca de Seu Barriga recebia o propriet\u00e1rio e seus convidados nos fins de semana: pescaria, descanso e churrasco, port\u00f5es fechados ao p\u00fablico. Autuado, ele defendeu a perman\u00eancia da edifica\u00e7\u00e3o com a exce\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal para o &#8220;ecoturismo&#8221; e o &#8220;turismo rural&#8221; em constru\u00e7\u00f5es consolidadas antes de 2008. Lazer privado com paisagem bonita \u00e9 turismo ecol\u00f3gico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 12.651\/2012 (C\u00f3digo Florestal), art. 61-A, \u00a7 12<\/strong> <em>(admite a perman\u00eancia de edifica\u00e7\u00e3o consolidada em APP at\u00e9 22\/7\/2008 quando associada a atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo ou de turismo rural).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Exce\u00e7\u00e3o a regra protetiva n\u00e3o comporta interpreta\u00e7\u00e3o extensiva: aplic\u00e1-la fora das hip\u00f3teses delimitadas contraria a norma em vez de interpret\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Ecoturismo, na defini\u00e7\u00e3o oficial do Minist\u00e9rio do Turismo, estrutura-se em tr\u00eas elementos: abertura ao p\u00fablico como atividade tur\u00edstica pr\u00f3pria, finalidade conservacionista e educativa, e sustentabilidade operacional verific\u00e1vel; no rancho de lazer, a natureza \u00e9 apenas cen\u00e1rio do deleite individual, n\u00e3o objeto da atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A jurisprud\u00eancia do STJ s\u00f3 tolera edifica\u00e7\u00f5es em APP nas hip\u00f3teses de utilidade p\u00fablica, interesse social ou baixo impacto previstas no C\u00f3digo Florestal, que n\u00e3o abrangem casas de veraneio destinadas ao recreio dos donos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A defesa apostava na elasticidade das palavras: quem pesca no rio e recebe amigos na varanda <strong>pratica turismo em ambiente rural<\/strong>, e a constru\u00e7\u00e3o antiga estaria consolidada pela cl\u00e1usula de anistia do C\u00f3digo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Primeira Se\u00e7\u00e3o pediu os tr\u00eas crivos do conceito: <strong>p\u00fablico em geral, prop\u00f3sito conservacionista e sustentabilidade verific\u00e1vel<\/strong>. O rancho n\u00e3o passa em nenhum: frequ\u00eancia restrita, finalidade recreativa e nenhum programa de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 E quanto ao apelo econ\u00f4mico? A demoli\u00e7\u00e3o de estruturas antigas <strong>atingiria milhares de ranchos consolidados \u00e0s margens dos rios<\/strong>, criando passivo social e inseguran\u00e7a jur\u00eddica. A regra \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o da APP; <strong>a anistia do art. 61-A \u00e9 v\u00e1lvula estreita para quem produz, conserva ou educa<\/strong>; ampli\u00e1-la ao veraneio particular transformaria a exce\u00e7\u00e3o em porta escancarada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relativamente ao rancho de pesca de uso privado erguido em \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente antes de 22\/7\/2008:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) beneficia-se da exce\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal, consolidada a edifica\u00e7\u00e3o pela marca temporal legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) enquadra-se como turismo rural, bastando a localiza\u00e7\u00e3o campestre e o uso recreativo do im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) equipara-se ao ecoturismo quando a pesca observar os per\u00edodos de defeso e as licen\u00e7as ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) n\u00e3o se enquadra nas atividades de ecoturismo ou turismo rural, ficando fora da exce\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) legitima-se como atividade de baixo impacto ambiental, dispensada demonstra\u00e7\u00e3o adicional de enquadramento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A marca temporal n\u00e3o basta: a perman\u00eancia pressup\u00f5e a associa\u00e7\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o \u00e0s atividades listadas (agrossilvipastoris, ecoturismo ou turismo rural), ausentes no lazer privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Turismo pressup\u00f5e atividade aberta ao p\u00fablico; estrutura frequentada pelo dono e convidados nos fins de semana \u00e9 veraneio, n\u00e3o explora\u00e7\u00e3o tur\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Licen\u00e7as de pesca n\u00e3o convertem o recreio individual em ecoturismo, que exige finalidade conservacionista e educativa e sustentabilidade operacional verific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. Foi a conclus\u00e3o da Primeira Se\u00e7\u00e3o no AREsp 2.749.205: no rancho de lazer, a natureza \u00e9 mero pano de fundo do deleite individual, e a exce\u00e7\u00e3o do art. 61-A, \u00a7 12, n\u00e3o o alcan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. As hip\u00f3teses de baixo impacto s\u00e3o igualmente taxativas e demandam enquadramento demonstrado; casas de veraneio n\u00e3o figuram entre elas.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-3\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia reside em definir se as constru\u00e7\u00f5es erguidas \u00e0s margens de um rio (\u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente &#8211; APP), como rancho de pesca e lazer para uso privado dos propriet\u00e1rios, configuram atividades de ecoturismo e turismo rural, toleradas pelo art. 61-A do C\u00f3digo Florestal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O \u00a7 12 do art. 61-A da Lei n. 12.651\/2012 admitiu a perman\u00eancia de edifica\u00e7\u00e3o consolidada em APP at\u00e9 22\/7\/2008, desde que associada ao desempenho de atividades agrossilvipastoris, ecoturismo e turismo rural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, por se tratar de exce\u00e7\u00e3o a uma regra protetiva que n\u00e3o comporta interpreta\u00e7\u00e3o extensiva, a sua aplica\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es fora daquelas efetivamente delimitadas no texto legal, longe de interpretar a norma, acaba por contrari\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, \u00e9 preciso partir do que o conceito de ecoturismo efetivamente significa no ordenamento jur\u00eddico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo o Minist\u00e9rio do Turismo, &#8220;Ecoturismo \u00e9 um segmento da atividade tur\u00edstica que utiliza, de forma sustent\u00e1vel, o patrim\u00f4nio natural e cultural&#8221;, com vistas \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia ambiental (BRASIL. Minist\u00e9rio do Turismo. Ecoturismo: orienta\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. 2. ed. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio do Turismo, 2010. 90 p.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tr\u00eas elementos s\u00e3o estruturantes nessa defini\u00e7\u00e3o: a) a abertura ao p\u00fablico em geral, como atividade tur\u00edstica pr\u00f3pria; b) a finalidade conservacionista e educativa e c) a sustentabilidade como requisito operacional verific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Destarte, o rancho de pesca utilizado para lazer n\u00e3o atende a nenhum dos tr\u00eas requisitos acima citados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De um lado, tem-se uma estrutura de ecoturismo com trilhas sinalizadas, guias especializados, controle de capacidade de carga, programas de educa\u00e7\u00e3o ambiental e acesso franqueado ao p\u00fablico mediante agendamento. A natureza, nesse caso, \u00e9 o objeto da atividade &#8211; ela \u00e9 preservada, apresentada e valorizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De outro, o rancho de pesca consolida edifica\u00e7\u00e3o de uso privado, frequentada pelos propriet\u00e1rios e seus convidados nos finais de semana, onde a pesca e o descanso s\u00e3o o fim em si mesmo. A natureza, aqui, \u00e9 apenas o cen\u00e1rio &#8211; o pano de fundo de uma experi\u00eancia de deleite individual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse cen\u00e1rio, a compreens\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o na origem diverge do entendimento do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, de que a manuten\u00e7\u00e3o de edifica\u00e7\u00f5es em APP \u00e9 admitida de forma totalmente excepcional, somente nas hip\u00f3teses de utilidade p\u00fablica, de interesse social ou de baixo impacto ambiental previstas no C\u00f3digo Florestal, situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o abrangem casas de veraneio destinadas ao deleite individual, como \u00e9 o caso dos ranchos de pesca e lazer.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-6-iss-ou-icms-na-impressao-de-cartoes-bancarios-smart-cards\" class=\"wp-block-heading\">6. ISS OU ICMS NA IMPRESS\u00c3O DE CART\u00d5ES BANC\u00c1RIOS (SMART CARDS)<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Incide <strong>ISS sobre a impress\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o dos cart\u00f5es banc\u00e1rios de d\u00e9bito e cr\u00e9dito (<em>smart cards<\/em>)<\/strong>: trata-se de atividade gr\u00e1fica personalizada sob encomenda (item 13.05 da lista da LC n. 116\/2003), <strong>sem circula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de mercadoria<\/strong> apta a atrair o ICMS (aplica\u00e7\u00e3o do Tema 91\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.247.088-SP, Rel. Min. Paulo S\u00e9rgio Domingues, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 4\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gr\u00e1fica Impressul fabrica sob encomenda os cart\u00f5es de d\u00e9bito e cr\u00e9dito dos bancos: pl\u00e1stico, chip e os dados de cada correntista, bandeira e conta. O Fisco paulista autuou a empresa cobrando ICMS, por enxergar fabrica\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadoria; a contribuinte ajuizou anulat\u00f3ria sustentando tratar-se de servi\u00e7o gr\u00e1fico personalizado, tribut\u00e1vel pelo ISS municipal. O cart\u00e3o que s\u00f3 serve a um cliente \u00e9 mercadoria ou servi\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LC n. 116\/2003, item 13.05 da lista anexa<\/strong> <em>(composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, inclusive confec\u00e7\u00e3o de impressos personalizados, sujeita ao ISS, ressalvado o material destinado a posterior industrializa\u00e7\u00e3o ou comercializa\u00e7\u00e3o, tribut\u00e1vel pelo ICMS).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Tema 91\/STJ<\/strong> <em>(as opera\u00e7\u00f5es de composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica com impressos personalizados e sob encomenda s\u00e3o mistas, com os servi\u00e7os agregados inclu\u00eddos na lista anexa, sujeitando-se ao ISS, e n\u00e3o ao ICMS).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Apesar da tecnologia embarcada, os smart cards preservam a natureza de impressos gr\u00e1ficos personalizados: manufaturados para um cliente, uma bandeira, um banco e, por vezes, uma conta espec\u00edfica, tornam-se in\u00fateis a qualquer outra finalidade ap\u00f3s confeccionados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A ressalva das embalagens (industrializa\u00e7\u00e3o por encomenda integrada a etapa posterior de circula\u00e7\u00e3o) n\u00e3o socorre o Fisco estadual: o cart\u00e3o \u00e9 produto final, n\u00e3o insumo de outro processo produtivo ou mercantil, e n\u00e3o existe cart\u00e3o &#8220;em branco&#8221; reutiliz\u00e1vel em outra rela\u00e7\u00e3o contratual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A autua\u00e7\u00e3o estadual apoiava-se na modernidade do objeto: cart\u00e3o com chip \u00e9 bem industrializado em escala, <strong>mais pr\u00f3ximo da mercadoria eletr\u00f4nica que do panfleto de gr\u00e1fica<\/strong>, e o precedente das embalagens teria aberto a porta do ICMS para as encomendas industriais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Primeira Turma olhou a fun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o verniz tecnol\u00f3gico: <strong>cada cart\u00e3o nasce amarrado a um contrato banc\u00e1rio espec\u00edfico<\/strong> e morre para qualquer outro uso; \u00e9 o retrato do impresso personalizado sob encomenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Sobrava o paralelo com r\u00f3tulos e etiquetas, <strong>tributados pelo ICMS quando integrados \u00e0 cadeia de circula\u00e7\u00e3o<\/strong> do produto que acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 o destino: r\u00f3tulo adere a mercadoria que seguir\u00e1 circulando; <strong>o smart card \u00e9 entregue ao banco como produto final do servi\u00e7o gr\u00e1fico<\/strong>, sem etapa subsequente de industrializa\u00e7\u00e3o ou com\u00e9rcio, o que mant\u00e9m a opera\u00e7\u00e3o no campo do ISS, na linha do Tema 91.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a tributa\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es banc\u00e1rios com chip (smart cards), produzidos sob encomenda das institui\u00e7\u00f5es financeiras:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) sujeita-se ao ICMS, configurada a fabrica\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadoria com tecnologia agregada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) incide o ISS, cuidando-se de opera\u00e7\u00e3o mista de composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica personalizada sob encomenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) aplica-se o regime das embalagens, com ICMS pela integra\u00e7\u00e3o do cart\u00e3o a processo de circula\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) reparte-se a base tribut\u00e1vel entre ISS sobre a personaliza\u00e7\u00e3o e ICMS sobre o suporte pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) depende da destina\u00e7\u00e3o dada pelo banco: ISS no uso interno e ICMS na entrega dos cart\u00f5es aos correntistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A tecnologia agregada n\u00e3o muda a natureza origin\u00e1ria de impresso gr\u00e1fico personalizado; n\u00e3o h\u00e1 circula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de mercadoria na entrega do cart\u00e3o encomendado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. Foi a conclus\u00e3o do REsp 2.247.088, aplicando o Tema 91\/STJ: a confec\u00e7\u00e3o de impressos personalizados sob encomenda \u00e9 opera\u00e7\u00e3o mista sujeita ao imposto municipal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A ressalva vale para o material integrado a etapa posterior de industrializa\u00e7\u00e3o ou comercializa\u00e7\u00e3o; o smart card \u00e9 produto final, inserv\u00edvel a qualquer outra rela\u00e7\u00e3o contratual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 biparti\u00e7\u00e3o de bases: a opera\u00e7\u00e3o mista, com servi\u00e7o inclu\u00eddo na lista anexa, atrai integralmente o imposto municipal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A entrega dos cart\u00f5es aos correntistas integra a presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os banc\u00e1rios, e n\u00e3o uma revenda; a destina\u00e7\u00e3o posterior n\u00e3o transforma o impresso em mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-4\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a saber se ocorre incid\u00eancia do Imposto Sobre Servi\u00e7os de Qualquer Natureza (ISS) sobre a impress\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o dos cart\u00f5es banc\u00e1rios de d\u00e9bito e cr\u00e9dito (smart cards), em detrimento do Imposto sobre Opera\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 Circula\u00e7\u00e3o de Mercadorias e sobre Presta\u00e7\u00f5es de Servi\u00e7os de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunica\u00e7\u00e3o (ICMS).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, cuida-se de a\u00e7\u00e3o anulat\u00f3ria de ICMS e multas lavradas pela Secretaria de Fazenda do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A parte contribuinte pretendeu o reconhecimento da incid\u00eancia do ISS sobre a impress\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o dos cart\u00f5es banc\u00e1rios de d\u00e9bito e cr\u00e9dito (smart cards), sob o argumento de se tratar de atividade gr\u00e1fica, pautada no regramento da Lei Complementar n. 116\/2003 e n\u00e3o de fabrica\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, para fins de incid\u00eancia do ICMS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ponto de tens\u00e3o est\u00e1 na fronteira entre &#8220;mercadoria&#8221; e &#8220;servi\u00e7o&#8221;, especialmente em opera\u00e7\u00f5es mistas. A quest\u00e3o submetida \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o consiste em definir se os denominados smart cards, cart\u00f5es banc\u00e1rios magn\u00e9ticos, dotados de chip e individualizados para cada correntista, devem ser qualificados como bens destinados \u00e0 atividade mercantil, pass\u00edveis de circula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica aut\u00f4noma, ou se, diversamente, configuram instrumentos acess\u00f3rios e indissoci\u00e1veis da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os banc\u00e1rios, fornecidos pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras como meio necess\u00e1rio de acesso \u00e0s opera\u00e7\u00f5es e funcionalidades disponibilizadas aos seus clientes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora se trate de produtos com tecnologia moderna agregada, os smart cards n\u00e3o perdem, por isso, sua natureza origin\u00e1ria de impressos gr\u00e1ficos personalizados, uma vez que, ao serem encomendados e manufaturados, prestam-se \u00fanica e exclusivamente \u00e0quele cliente espec\u00edfico, \u00e0quela identidade digital, para aquela bandeira de cr\u00e9dito ou d\u00e9bito, aquele banco e, em determinados casos, \u00e0quela conta banc\u00e1ria espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim sendo, trata-se de elemento impresso diretamente vinculado ao contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, d\u00e9bito ou conta banc\u00e1ria em suas mais variadas possibilidades, que, ap\u00f3s confeccionado, se torna totalmente in\u00fatil a qualquer outra finalidade, que n\u00e3o \u00e0 da execu\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o para o qual encomendado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para o caso das embalagens, o Supremo Tribunal Federal definiu que haveria incid\u00eancia de ICMS sobre as opera\u00e7\u00f5es de industrializa\u00e7\u00e3o por encomenda destinada \u00e0 integra\u00e7\u00e3o ou utiliza\u00e7\u00e3o direta em processo subsequente de industrializa\u00e7\u00e3o ou de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria. Nessa mesma linha, \u00e9 a atual jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, n\u00e3o merece prosperar o argumento de que h\u00e1 circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, pass\u00edvel de incid\u00eancia de ICMS e que a situa\u00e7\u00e3o ora em exame se adequa \u00e0 conclus\u00e3o jur\u00eddica estabelecida para a tributa\u00e7\u00e3o das embalagens, r\u00f3tulos e etiquetas. Os smart cards n\u00e3o s\u00e3o integrados a nenhuma outra esp\u00e9cie de produto ou sequer s\u00e3o utilizados em processo de industrializa\u00e7\u00e3o ou comercializa\u00e7\u00e3o de mercadoria, pois se trata de produto final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em outras palavras, n\u00e3o existe, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, smart card em branco para ser modificado, reatribu\u00eddo ou reutilizado em outra rela\u00e7\u00e3o contratual, de forma que invi\u00e1vel a aplica\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o prevista no item 13.05 da lista anexa \u00e0 Lei Complementar n. 116\/2003, que permitiria a incid\u00eancia de ICMS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, n\u00e3o havendo altera\u00e7\u00e3o da natureza do fato em si, e debalde os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos havidos desde ent\u00e3o, h\u00e1 de se aplicar ao caso em an\u00e1lise o entendimento do STJ, definido no Tema 91\/STJ, segundo o qual: &#8220;As opera\u00e7\u00f5es de composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, como no caso de impressos personalizados e sob encomenda, s\u00e3o de natureza mista, sendo que os servi\u00e7os a elas agregados est\u00e3o inclu\u00eddos na Lista Anexa ao Decreto-Lei 406\/68 (item 77) e \u00e0 LC 116\/03 (item 13.05). Consequentemente, tais opera\u00e7\u00f5es est\u00e3o sujeitas \u00e0 incid\u00eancia de ISSQN (e n\u00e3o de ICMS)&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-7-continuidade-delitiva-no-direito-administrativo-sancionador\" class=\"wp-block-heading\">7. CONTINUIDADE DELITIVA NO DIREITO ADMINISTRATIVO SANCIONADOR<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 vedada a aplica\u00e7\u00e3o do <strong>art. 71 do C\u00f3digo Penal (continuidade delitiva) \u00e0s infra\u00e7\u00f5es administrativas<\/strong> quando ausente <strong>disposi\u00e7\u00e3o normativa expressa que a autorize<\/strong>: o direito administrativo sancionador \u00e9 ramo desvinculado do direito penal (Tema 1199\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt no AREsp 2.937.639-RS, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 4\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Multada repetidas vezes pela fiscaliza\u00e7\u00e3o metrol\u00f3gica com base na Lei n. 9.933\/1999, a Vendetudo Atacadista tentou reduzir a conta com um empr\u00e9stimo do direito penal: as infra\u00e7\u00f5es, praticadas nas mesmas condi\u00e7\u00f5es de tempo, lugar e maneira, formariam continuidade delitiva (CP, art. 71), devendo uma s\u00f3 penalidade absorver as demais com acr\u00e9scimo de fra\u00e7\u00e3o. O instituto criado para crimes socorre o infrator administrativo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 71; Lei n. 9.933\/1999<\/strong> <em>(a continuidade delitiva unifica penas de crimes da mesma esp\u00e9cie praticados em contexto semelhante; a lei metrol\u00f3gica que amparou a fiscaliza\u00e7\u00e3o nada disp\u00f5e sobre o instituto na dosimetria das multas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Desde a leitura do STF no Tema 1199 (ARE 843.989), o direito administrativo sancionador \u00e9 ramo aut\u00f4nomo: as disposi\u00e7\u00f5es penais n\u00e3o o integram, salvo quando norma espec\u00edfica as incorpore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Conduta, processo e san\u00e7\u00e3o administrativa devem estar previstos em lei pr\u00f3pria, com as garantias do <em>ius puniendi<\/em> estatal; as lacunas do sistema n\u00e3o se suprem com institutos penais sem previs\u00e3o expressa da norma administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O apelo da empresa tinha simetria aparente: se o sancionador bebe das garantias penais, <strong>deveria beber tamb\u00e9m dos institutos que beneficiam o infrator<\/strong>, e a continuidade delitiva \u00e9 o mais generoso deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Segunda Turma desfez a equa\u00e7\u00e3o: as garantias constitucionais do poder punitivo se aplicam por for\u00e7a pr\u00f3pria, <strong>mas os institutos legais do direito penal s\u00f3 migram com passagem legislativa<\/strong> expressa na norma administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Sem a unifica\u00e7\u00e3o, argumentava-se, <strong>a multiplica\u00e7\u00e3o de autos de infra\u00e7\u00e3o id\u00eanticos viraria confisco<\/strong>, punindo o mesmo comportamento tantas vezes quantas a fiscaliza\u00e7\u00e3o visitasse o estabelecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O rem\u00e9dio para excessos est\u00e1 dentro do pr\u00f3prio sistema administrativo: proporcionalidade da dosimetria e controle judicial dos autos; <strong>o que n\u00e3o se admite \u00e9 o juiz legislar, importando o art. 71 por analogia<\/strong> para onde o legislador n\u00e3o o levou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da continuidade delitiva (CP, art. 71) na dosimetria de penalidades por infra\u00e7\u00f5es administrativas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00e9 vedada quando ausente disposi\u00e7\u00e3o normativa expressa que a autorize no regime administrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) imp\u00f5e-se diante de infra\u00e7\u00f5es da mesma esp\u00e9cie em id\u00eanticas condi\u00e7\u00f5es de tempo, lugar e maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) admite-se por analogia <em>in bonam partem<\/em>, express\u00e3o da unidade do poder punitivo estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) condiciona-se \u00e0 natureza tribut\u00e1ria da penalidade, campo em que a unifica\u00e7\u00e3o \u00e9 tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) aplica-se aos processos em curso por for\u00e7a retroativa do precedente do STF sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. Foi a conclus\u00e3o do AgInt no AREsp 2.937.639, na esteira do Tema 1199\/STF: sem norma expressa, a continuidade delitiva n\u00e3o alcan\u00e7a as infra\u00e7\u00f5es administrativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Os requisitos do art. 71 s\u00e3o irrelevantes se o instituto sequer ingressou no regime administrativo aplic\u00e1vel; a Lei n. 9.933\/1999 nada disp\u00f5e a respeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Nem a analogia ben\u00e9fica autoriza o transplante: o sancionador \u00e9 desvinculado do direito penal, e seus institutos s\u00f3 incidem mediante previs\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Nenhum recorte por natureza da penalidade foi feito; a raz\u00e3o de decidir vale para o sancionador em geral, \u00e0 falta de previs\u00e3o normativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O precedente do STF fundamenta justamente a veda\u00e7\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 efic\u00e1cia retroativa criando instituto que a lei administrativa n\u00e3o contempla.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-5\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em debater a possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o da continuidade delitiva no \u00e2mbito do processo administrativo sancionador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por oportuno, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o realizada pelo Supremo Tribunal Federal no ARE 843.989\/PR (Tema n. 1199\/STF), resulta a seguinte percep\u00e7\u00e3o: o direito administrativo sancionador &#8211; ou seja, aquele que regula a responsabiliza\u00e7\u00e3o pelas infra\u00e7\u00f5es administrativas &#8211; \u00e9 um ramo desvinculado do direito penal, e a ele n\u00e3o se aplicam suas disposi\u00e7\u00f5es, a menos que haja norma espec\u00edfica que assim o preveja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em outras palavras, a conduta, o processo administrativo e as respectivas san\u00e7\u00f5es devem estar previstos em lei espec\u00edfica, respeitando-se as garantias constitucionais t\u00edpicas do <em>ius puniendi<\/em> estatal. As lacunas desse sistema, todavia, n\u00e3o podem ser suprimidas pelos institutos do direito penal, sem que haja previs\u00e3o expressa da norma administrativa para tanto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a fiscaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 amparada na Lei n. 9.933\/1999, a qual n\u00e3o disp\u00f5e a respeito do instituto da continuidade delitiva para a dosimetria das penalidades administrativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante disso, \u00e9 imposs\u00edvel a aplica\u00e7\u00e3o do art. 71 do C\u00f3digo Penal \u00e0s infra\u00e7\u00f5es administrativas quando ausente disposi\u00e7\u00e3o normativa espec\u00edfica que a autorize.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-8-assedio-sexual-e-o-novo-rol-taxativo-da-improbidade\" class=\"wp-block-heading\">8. ASS\u00c9DIO SEXUAL E O NOVO ROL TAXATIVO DA IMPROBIDADE<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a Lei n. 14.230\/2021, <strong>a pr\u00e1tica do crime de ass\u00e9dio sexual deixou de constituir ato de improbidade administrativa<\/strong>: a revoga\u00e7\u00e3o do rol exemplificativo do art. 11 da Lei n. 8.429\/1992 <strong>n\u00e3o deixou espa\u00e7o para o enquadramento de condutas n\u00e3o expressamente tipificadas<\/strong>, respondendo o agente na esfera penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Processo em segredo de justi\u00e7a, Rel. Min. Francisco Falc\u00e3o, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 18\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Norberto, de um Instituto Federal, respondeu a a\u00e7\u00e3o de improbidade por ass\u00e9dio sexual praticado no exerc\u00edcio do cargo, enquadrado no art. 11, <em>caput<\/em> e I, da Lei n. 8.429\/1992, quando o rol ainda era exemplificativo e o &#8220;notadamente&#8221; abria a porta \u00e0s condutas da legisla\u00e7\u00e3o penal. No curso do processo veio a Lei n. 14.230\/2021, que fechou o cat\u00e1logo. A conduta grave sobrevive na improbidade ou migra inteira para o ju\u00edzo criminal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.429\/1992, art. 11 (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 14.230\/2021)<\/strong> <em>(a improbidade por viola\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios da Administra\u00e7\u00e3o exige a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o dolosa caracterizada por uma das condutas dos incisos I a IX, revogados o caput exemplificativo e os antigos incisos I e II).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Al\u00e9m do rol fechado, a legisla\u00e7\u00e3o esparsa segue tipificando condutas \u00edmprobas (art. 73, \u00a7 7\u00ba, da Lei n. 9.504\/1997; art. 12 da Lei n. 12.813\/2013); o ass\u00e9dio sexual n\u00e3o consta de nenhuma das listas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Dado eloquente da vontade legislativa: a Emenda 18 ao projeto da reforma propunha inserir o ass\u00e9dio sexual no art. 11 e foi expressamente rejeitada pelo Congresso, que reputou suficiente a repress\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A restri\u00e7\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do parlamento, infensa ao Judici\u00e1rio sob pena de ofensa \u00e0 separa\u00e7\u00e3o dos poderes; em caso de viol\u00eancia sexual, o agente p\u00fablico responde na esfera penal, afastada a improbidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A resist\u00eancia \u00e0 conclus\u00e3o era compreens\u00edvel: retirar da improbidade uma conduta t\u00e3o grave <strong>soa como retrocesso na prote\u00e7\u00e3o da moralidade administrativa<\/strong> e das v\u00edtimas de agentes p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Segunda Turma aplicou a taxatividade sem exce\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em>: <strong>o cat\u00e1logo fechado vale para as condutas simp\u00e1ticas e antip\u00e1ticas ao int\u00e9rprete<\/strong>; aberto o precedente da inclus\u00e3o judicial, o rol voltaria a ser o que a reforma quis extinguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Soma-se a isso o hist\u00f3rico legislativo: <strong>o Congresso examinou e rejeitou emenda que incluiria o ass\u00e9dio sexual<\/strong> no novo art. 11, escolha deliberada e documentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Diante de op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica expressa, o Judici\u00e1rio n\u00e3o corrige a lei que desaprova: <strong>a resposta estatal ao ass\u00e9dio migrou integralmente para o direito penal<\/strong>, sem preju\u00edzo das esferas disciplinar e civil pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a Lei n. 14.230\/2021, a pr\u00e1tica de ass\u00e9dio sexual por agente p\u00fablico, para fins da Lei de Improbidade Administrativa:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) permanece enquadr\u00e1vel no art. 11, dada a evidente viola\u00e7\u00e3o dolosa aos princ\u00edpios da Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) deixou de constituir ato de improbidade, ausente do rol taxativo e da legisla\u00e7\u00e3o esparsa tipificadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) transfere-se para o art. 9\u00ba, configurando enriquecimento il\u00edcito pela vantagem indevida obtida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) subsiste como improbidade mediante interpreta\u00e7\u00e3o conforme, dada a gravidade da conduta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) depende de pr\u00e9via condena\u00e7\u00e3o criminal para autorizar o ajuizamento da a\u00e7\u00e3o de improbidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O rol do art. 11 tornou-se taxativo: sem tipifica\u00e7\u00e3o expressa nos incisos I a IX ou na legisla\u00e7\u00e3o esparsa, n\u00e3o h\u00e1 mais enquadramento pela cl\u00e1usula geral revogada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. Foi a conclus\u00e3o da Segunda Turma: o ass\u00e9dio sexual n\u00e3o figura no cat\u00e1logo fechado, e a rejei\u00e7\u00e3o expressa da Emenda 18 pelo Congresso confirma a op\u00e7\u00e3o de reprimi-lo na esfera penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Nenhum reenquadramento foi cogitado: a vantagem visada no ass\u00e9dio n\u00e3o se confunde com o acr\u00e9scimo patrimonial il\u00edcito do art. 9\u00ba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Interpreta\u00e7\u00e3o conforme n\u00e3o serve para recriar hip\u00f3tese que o legislador excluiu deliberadamente; a corre\u00e7\u00e3o da lei caberia ao parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de prejudicialidade, e sim de atipicidade superveniente na seara da improbidade; a a\u00e7\u00e3o penal segue seu curso pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-6\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia reside na tipifica\u00e7\u00e3o da conduta do ass\u00e9dio sexual como ato de improbidade administrativa ap\u00f3s o advento da Lei n. 14.230\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cuida-se, na origem, de a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica por ato de improbidade administrativa ajuizada por Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia em virtude de suposta conduta de ass\u00e9dio sexual praticado pelo requerido na qualidade de professor, sendo-lhe imputada a pr\u00e1tica do ato de improbidade administrativa descrito no art. 11, <em>caput<\/em> e I, da Lei n. 8.429\/1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os atos de improbidade que atentam contra os princ\u00edpios da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica estavam previstos em rol exemplificativo e abarcavam as condutas il\u00edcitas previstas na legisla\u00e7\u00e3o penal em raz\u00e3o do voc\u00e1bulo &#8220;notadamente&#8221; constante no <em>caput<\/em> do art. 11 da Lei n. 8.429\/1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a edi\u00e7\u00e3o da Lei n. 14.230\/2021, constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princ\u00edpios da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica a a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o dolosa que viole os deveres de honestidade, de imparcialidade e de legalidade, caracterizada por uma das condutas previstas nos incisos I a IX do referido artigo ou na legisla\u00e7\u00e3o esparsa que tamb\u00e9m tipifica condutas \u00edmprobas (art. 73, \u00a7 7\u00ba, da Lei n. 9.504\/1997; art. 12 da Lei n. 12.813\/2013, entre outras).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para o enquadramento de condutas n\u00e3o expressamente tipificadas, como se admitia sob a \u00e9gide da reda\u00e7\u00e3o anterior. No caso vertente, o ass\u00e9dio sexual n\u00e3o consta no rol taxativo do art. 11 da Lei n. 8.429\/1992, nem tampouco na legisla\u00e7\u00e3o esparsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, merece destaque que durante a tramita\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei n. 2505\/2021, que resultou na Lei n. 14.230\/2021, foi apresentada a Emenda 18 para inserir o ass\u00e9dio sexual no inciso XIII do art. 11 da mencionada Lei, a qual, todavia, foi rejeitada expressamente pelo Congresso Nacional, conforme parecer que considerou suficiente repreender o ass\u00e9dio sexual apenas no \u00e2mbito do Direito Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O legislador ordin\u00e1rio, ao restringir o \u00e2mbito de incid\u00eancia do art. 11 da Lei n. 8.429\/1992, eliminando a cl\u00e1usula geral de abertura que permitia a puni\u00e7\u00e3o por viola\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica sem correspond\u00eancia estrita com as condutas legalmente descritas impediu que condutas reprov\u00e1veis e graves, como o ass\u00e9dio sexual e a tortura, estivessem no \u00e2mbito de incid\u00eancia da lei de improbidade administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, trata-se de op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Congresso Nacional que escapa \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio, sob pena de viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o entre os poderes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, ap\u00f3s a reforma legislativa, em caso de viol\u00eancia sexual, o agente p\u00fablico deve responder apenas na esfera penal ficando afastada a puni\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da improbidade administrativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-9-renuncia-a-benfeitorias-e-acessoes-na-locacao-comercial\" class=\"wp-block-heading\">9. REN\u00daNCIA A BENFEITORIAS E ACESS\u00d5ES NA LOCA\u00c7\u00c3O COMERCIAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei de Loca\u00e7\u00f5es (art. 35) emprega &#8220;benfeitorias&#8221; <strong>de forma gen\u00e9rica, em conson\u00e2ncia com os usos e costumes do mercado imobili\u00e1rio<\/strong>: no contexto da loca\u00e7\u00e3o comercial de terreno vazio, <strong>a cl\u00e1usula de ren\u00fancia \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a tamb\u00e9m as acess\u00f5es<\/strong> erguidas pelo locat\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.899.963-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Rel. p\/ ac\u00f3rd\u00e3o Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por maioria, julgado em 4\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko alugou um terreno vazio para montar seu empreendimento desportivo, ciente de que precisaria construir tudo do zero, e assinou cl\u00e1usula renunciando \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o e \u00e0 reten\u00e7\u00e3o &#8220;por quaisquer benfeitorias&#8221;, incorporadas ao im\u00f3vel. Despejado por den\u00fancia vazia anos depois, sacou a teoria dos direitos reais: quadras e vesti\u00e1rios erguidos no terreno s\u00e3o acess\u00f5es, n\u00e3o benfeitorias, e a ren\u00fancia n\u00e3o os alcan\u00e7aria. A distin\u00e7\u00e3o acad\u00eamica reabre a conta do locador?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.245\/1991, art. 35; S\u00famula 335\/STJ<\/strong> <em>(salvo disposi\u00e7\u00e3o contratual em contr\u00e1rio, as benfeitorias necess\u00e1rias e as \u00fateis autorizadas s\u00e3o indeniz\u00e1veis e permitem reten\u00e7\u00e3o; \u00e9 v\u00e1lida a cl\u00e1usula de ren\u00fancia nos contratos de loca\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, arts. 113 e 114<\/strong> <em>(os neg\u00f3cios jur\u00eddicos interpretam-se conforme a boa-f\u00e9 e os usos do lugar de sua celebra\u00e7\u00e3o; os neg\u00f3cios ben\u00e9ficos e a ren\u00fancia interpretam-se estritamente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A lei do inquilinato n\u00e3o trata de acess\u00f5es: o legislador usou &#8220;benfeitorias&#8221; em sentido amplo, abarcando as obras e constru\u00e7\u00f5es realizadas no im\u00f3vel, e a S\u00famula 335 validou a ren\u00fancia sem ressalvar as acess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Nos usos e costumes locat\u00edcios, &#8220;benfeitorias&#8221; designa genericamente as interven\u00e7\u00f5es do locat\u00e1rio, qualquer que seja a classifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica; quem contrata terreno vazio sabendo que construir\u00e1, e renuncia \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o, presumivelmente obteve contrapartidas no aluguel e nas demais condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A tese do locat\u00e1rio era tecnicamente sedutora: benfeitoria melhora coisa existente, acess\u00e3o cria coisa nova, <strong>e ren\u00fancia se interpreta estritamente (CC, art. 114)<\/strong>, sem esticar o texto para categorias n\u00e3o mencionadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A maioria da Quarta Turma respondeu com o art. 113: contratos se leem <strong>pela boa-f\u00e9 e pelos usos do lugar da celebra\u00e7\u00e3o<\/strong>, e na praxe locat\u00edcia &#8220;benfeitorias&#8221; nomeia indistintamente tudo o que o locat\u00e1rio ergue no im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f E quanto ao desequil\u00edbrio aparente? O locador recebe de volta <strong>um terreno valorizado por constru\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pagou<\/strong>, colhendo onde n\u00e3o plantou. O equil\u00edbrio estava no neg\u00f3cio desde a origem: o empres\u00e1rio contratou ciente do terreno nu e do risco do investimento, precificando essas condi\u00e7\u00f5es. <strong>Reabrir a equa\u00e7\u00e3o por r\u00f3tulo dogm\u00e1tico seria interven\u00e7\u00e3o judicial na autonomia privada<\/strong> e enriqueceria sem causa quem assumiu o risco de olhos abertos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na loca\u00e7\u00e3o comercial de terreno sem edifica\u00e7\u00f5es, com cl\u00e1usula de ren\u00fancia \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o por &#8220;quaisquer benfeitorias&#8221;, as constru\u00e7\u00f5es erguidas pelo locat\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) s\u00e3o indeniz\u00e1veis, pois acess\u00f5es n\u00e3o se confundem com benfeitorias e escapam da ren\u00fancia pactuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) geram direito de reten\u00e7\u00e3o at\u00e9 o reembolso, irrenunci\u00e1vel a prote\u00e7\u00e3o nas loca\u00e7\u00f5es n\u00e3o residenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) ficam abrangidas pela ren\u00fancia, interpretado o contrato pela boa-f\u00e9 e pelos usos do mercado locat\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) obrigam o locador a indenizar pela metade, repartido o risco do investimento entre as partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) autorizam o desfazimento das obras pelo locat\u00e1rio ao final do contrato, levantando os materiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A distin\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica entre as categorias foi reputada irrelevante no contexto: a praxe locat\u00edcia trata como &#8220;benfeitorias&#8221; as obras do locat\u00e1rio em geral, e o art. 35 da lei especial usa o termo nesse sentido amplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A S\u00famula 335\/STJ consagra a validade da cl\u00e1usula de ren\u00fancia nas loca\u00e7\u00f5es, sem ressalva; nenhuma irrenunciabilidade foi reconhecida no regime n\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. Foi a conclus\u00e3o da maioria no REsp 1.899.963: quem alugou terreno vazio sabendo que construiria, e renunciou \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o reabre a equa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com base na classifica\u00e7\u00e3o dos direitos reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 reparti\u00e7\u00e3o judicial do investimento: o risco empresarial foi assumido no contrato, com presum\u00edveis contrapartidas no aluguel e nas condi\u00e7\u00f5es pactuadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. As obras ficaram incorporadas ao im\u00f3vel por for\u00e7a da cl\u00e1usula; o levantamento de materiais n\u00e3o integrou a solu\u00e7\u00e3o do julgado.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-7\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia reside em definir se a cl\u00e1usula contratual de ren\u00fancia \u00e0s benfeitorias, presente no contrato de loca\u00e7\u00e3o, abrange tamb\u00e9m as acess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Tribunal de origem, analisando as particularidades do caso concreto, concluiu que a cl\u00e1usula de ren\u00fancia abarcava quaisquer modifica\u00e7\u00f5es realizadas no im\u00f3vel, considerando irrelevante a distin\u00e7\u00e3o entre benfeitorias e acess\u00f5es diante do contexto espec\u00edfico da contrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inicialmente, \u00e9 imperioso considerar o contexto espec\u00edfico da rela\u00e7\u00e3o locat\u00edcia estabelecida entre as partes, na qual, no momento do ajuste, o locat\u00e1rio contratou ciente de que alugava terreno vazio e de que seria necess\u00e1rio realizar investimentos em constru\u00e7\u00f5es para viabilizar sua atividade empresarial no ramo desportivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo em seguida, na cl\u00e1usula terceira do mesmo contrato, as partes estipularam expressamente que o locat\u00e1rio n\u00e3o teria direito \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o ou reten\u00e7\u00e3o por quaisquer benfeitorias, ainda que necess\u00e1rias, as quais ficariam incorporadas ao im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ponto, importa destacar que a legisla\u00e7\u00e3o de reg\u00eancia n\u00e3o trata de acess\u00f5es. O art. 35 da Lei n. 8.245\/1991 refere-se exclusivamente a benfeitorias, sem mencionar as acess\u00f5es, o que revela que o legislador, ao disciplinar as rela\u00e7\u00f5es locat\u00edcias, utilizou o termo &#8220;benfeitorias&#8221; em sentido amplo, abrangente de todas as modifica\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es que possam ser realizadas no im\u00f3vel locado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Note-se que esse mesmo racioc\u00ednio foi o adotado pelo Superior Tribunal de Justi\u00e7a quando da edi\u00e7\u00e3o da S\u00famula 335, ao considerar a validade da cl\u00e1usula de ren\u00fancia, sem qualquer ressalva quanto \u00e0s acess\u00f5es, limitando-se a referir &#8220;benfeitorias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, a aplica\u00e7\u00e3o do art. 113 do C\u00f3digo Civil, segundo o qual os neg\u00f3cios jur\u00eddicos devem ser interpretados conforme a boa-f\u00e9 e os usos do lugar de sua celebra\u00e7\u00e3o, conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que, no \u00e2mbito das loca\u00e7\u00f5es urbanas, tornou-se costume designar genericamente como &#8220;benfeitorias&#8221; todas as obras e constru\u00e7\u00f5es realizadas pelo locat\u00e1rio, independentemente da classifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que lhes caiba segundo a teoria geral dos direitos reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a veda\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o extensiva da cl\u00e1usula contratual (art. 114 do CC) n\u00e3o pode dar lugar \u00e0 pretens\u00e3o de distinguir rigorosamente benfeitorias de acess\u00f5es, na situa\u00e7\u00e3o em exame.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria natureza econ\u00f4mica do contrato de loca\u00e7\u00e3o admite que a ren\u00fancia \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o por obras realizadas integre a estrutura negocial ajustada entre as partes, al\u00e9m de ser consequ\u00eancia decorrente do pr\u00f3prio risco empresarial. Assim, interpretar o contrato segundo os usos e costumes do mercado locat\u00edcio significa reconhecer que a cl\u00e1usula de ren\u00fancia \u00e0s benfeitorias, nesse contexto espec\u00edfico, abrange tamb\u00e9m as acess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Frise-se que o locat\u00e1rio contratou sabendo das condi\u00e7\u00f5es do im\u00f3vel, da necessidade de realizar investimentos e da inexist\u00eancia de direito indenizat\u00f3rio, presumivelmente obtendo contrapartidas nessa negocia\u00e7\u00e3o, seja no valor do aluguel, seja nas demais condi\u00e7\u00f5es contratuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alterar posteriormente essa estrutura negocial, sob o pretexto de interpreta\u00e7\u00e3o restritiva da cl\u00e1usula de ren\u00fancia, representaria indevida interfer\u00eancia judicial na autonomia privada, al\u00e9m de potencial enriquecimento sem causa do locat\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-10-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-legitimidade-do-fiador-para-revisar-o-contrato-principal\" class=\"wp-block-heading\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; LEGITIMIDADE DO FIADOR PARA REVISAR O CONTRATO PRINCIPAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fiador <strong>N\u00c3O possui legitimidade ativa para revisar, em nome pr\u00f3prio, cl\u00e1usulas do contrato principal<\/strong>, dada a natureza acess\u00f3ria da fian\u00e7a, <strong>irrelevantes a qualifica\u00e7\u00e3o como principal pagador ou devedor solid\u00e1rio e a ren\u00fancia ao benef\u00edcio de ordem<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.977.431-RS, Rel. Min. Jo\u00e3o Ot\u00e1vio de Noronha, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 22\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f3pis afian\u00e7ou a confiss\u00e3o de d\u00edvida da Sumiu Express perante a credora e, vendo a bola de neve crescer, ajuizou em nome pr\u00f3prio a\u00e7\u00e3o revisional: queria derrubar juros e encargos do contrato principal para encolher a d\u00edvida que garantiu. Argumentou que, como principal pagadora e devedora solid\u00e1rio, sem benef\u00edcio de ordem, seu interesse seria direto. Quem s\u00f3 garante pode mexer no contrato dos outros?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Fian\u00e7a (CC, arts. 818 e seguintes)<\/strong> <em>(contrato acess\u00f3rio pelo qual terceiro garante ao credor o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o do devedor, pressupondo o neg\u00f3cio principal cujo adimplemento assegura).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda As rela\u00e7\u00f5es de direito material n\u00e3o se confundem: uma liga credor e devedor no contrato principal; outra, credor e fiador na garantia; a titularidade do direito discutido na revisional pertence ao devedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Interesse n\u00e3o \u00e9 legitimidade: o proveito econ\u00f4mico do fiador com a eventual redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida \u00e9 reflexo e n\u00e3o o transforma em titular do direito material, nem o autoriza a atuar como substituto processual sem previs\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A condi\u00e7\u00e3o de principal pagador, a solidariedade e a ren\u00fancia ao benef\u00edcio de ordem alteram o modo de responder pela d\u00edvida, n\u00e3o a titularidade do contrato garantido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O fiador tinha argumentos de peso econ\u00f4mico: se pagar\u00e1 como se devedor fosse, <strong>deveria poder discutir o tamanho do que paga<\/strong>, sob pena de garantir cl\u00e1usulas que reputa abusivas sem voz para combat\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A <strong>legitima\u00e7\u00e3o exige pertin\u00eancia subjetiva com o direito disputado<\/strong>, e o direito de rever o m\u00fatuo pertence a quem o contratou, a empresa devedora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A solidariedade pactuada n\u00e3o aproximaria o garante do contrato garantido, <strong>apagando na pr\u00e1tica a fronteira entre fiador e devedor?<\/strong> Aproxima no responder, n\u00e3o no titularizar: ren\u00fancias e qualifica\u00e7\u00f5es moldam a execu\u00e7\u00e3o da garantia, <strong>sem converter o fiador em parte do neg\u00f3cio principal<\/strong>; faltando autoriza\u00e7\u00e3o legal para a substitui\u00e7\u00e3o processual, a revisional em nome pr\u00f3prio morre na car\u00eancia de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 legitimidade do fiador para postular, em nome pr\u00f3prio, a revis\u00e3o de cl\u00e1usulas do contrato principal garantido:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) existe quando pactuada a solidariedade com ren\u00fancia ao benef\u00edcio de ordem, equiparado o fiador ao devedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) decorre do interesse econ\u00f4mico na redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida garantida, suficiente para a pertin\u00eancia subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) admite-se nos contratos banc\u00e1rios, dada a vulnerabilidade presumida do garante perante a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) inexiste, por ser a fian\u00e7a obriga\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria e pertencer o direito material ao devedor principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) condiciona-se ao litiscons\u00f3rcio com o devedor, formado o polo ativo conjunto na demanda revisional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A qualifica\u00e7\u00e3o como principal pagador e a ren\u00fancia ao benef\u00edcio de ordem mudam o modo de responder, n\u00e3o a titularidade do contrato; o julgado as declarou irrelevantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Interesse n\u00e3o se confunde com legitimidade: o proveito reflexo na redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida n\u00e3o faz do fiador titular do direito de rever o neg\u00f3cio alheio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Nenhum recorte por tipo contratual foi feito; a raz\u00e3o de decidir \u00e9 a acessoriedade da fian\u00e7a, v\u00e1lida para o m\u00fatuo banc\u00e1rio como para qualquer contrato principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. Foi a conclus\u00e3o do REsp 1.977.431: a natureza acess\u00f3ria da garantia deixa a revisional nas m\u00e3os do devedor, e o fiador n\u00e3o est\u00e1 autorizado por lei a substitu\u00ed-lo processualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O julgado n\u00e3o construiu essa via: a demanda foi barrada pela ilegitimidade do garante em nome pr\u00f3prio, sem cria\u00e7\u00e3o de litiscons\u00f3rcio necess\u00e1rio ativo.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-8\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em saber se o fiador possui legitimidade ativa para buscar a revis\u00e3o, bem como a nulidade de cl\u00e1usulas do contrato principal, qual seja, um instrumento de confiss\u00e3o de d\u00edvida garantido por fian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A fian\u00e7a \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria, assumida por terceiro, que garante ao credor o cumprimento total ou parcial da obriga\u00e7\u00e3o principal de outrem (o devedor) caso este n\u00e3o a cumpra ou n\u00e3o possa cumpri-la conforme o aven\u00e7ado. Tal esp\u00e9cie contratual apresenta como uma de suas principais caracter\u00edsticas a acessoriedade, ou seja, \u00e9 esp\u00e9cie de contrato secund\u00e1rio que pressup\u00f5e a exist\u00eancia de um contrato principal (aquele cujo adimplemento visa garantir).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, importa destacar que h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre as rela\u00e7\u00f5es de direito material estabelecidas entre o credor e o devedor do neg\u00f3cio jur\u00eddico principal e a rela\u00e7\u00e3o estabelecida no secund\u00e1rio contrato de fian\u00e7a firmado entre aquele mesmo credor e o fiador, que se apresenta como mero garantidor do adimplemento da obriga\u00e7\u00e3o principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, essa diferencia\u00e7\u00e3o torna evidente a ilegitimidade do fiador para, em nome pr\u00f3prio, pretender em ju\u00edzo a revis\u00e3o das cl\u00e1usulas contratuais que constitu\u00edram o contrato principal de m\u00fatuo. Eventual interesse reflexo do fiador pela redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida resultante do poss\u00edvel inadimplemento da obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe confere por si s\u00f3 legitimidade ativa para a causa revisional da obriga\u00e7\u00e3o principal, sendo irrelevante, nesse aspecto, o fato de responder de modo subsidi\u00e1rio ou mesmo solidariamente pela d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 que n\u00e3o se pode confundir interesse com legitimidade nem, menos ainda, conceber a ideia de que o exerc\u00edcio da a\u00e7\u00e3o estaria sujeito apenas \u00e0 exist\u00eancia do primeiro. Com efeito, a legitima\u00e7\u00e3o para agir diz respeito \u00e0 pertin\u00eancia subjetiva da a\u00e7\u00e3o, ou seja, est\u00e1 relacionada ao fato de ser o autor da pretens\u00e3o o verdadeiro titular do direito que se pretende tutelar bem como ser o r\u00e9u o titular do direito de se contrapor \u00e0quele pleito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, apesar de ser inconteste a exist\u00eancia de interesse econ\u00f4mico da parte recorrida (fiador) na eventual minora\u00e7\u00e3o da d\u00edvida que se comprometeu a garantir perante a recorrente (credora), n\u00e3o \u00e9 sua a legitimidade para demandar a revis\u00e3o das cl\u00e1usulas apostas no contrato principal de m\u00fatuo, j\u00e1 que, para tanto, a titular do direito material correlato \u00e9 pessoa jur\u00eddica distinta e o fiador, como consabido, n\u00e3o est\u00e1 autorizado por lei a atuar como seu substituto processual.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-11-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-arresto-prazo-do-art-308-do-cpc-e-sentenca-iliquida\" class=\"wp-block-heading\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ARRESTO, PRAZO DO ART. 308 DO CPC E SENTEN\u00c7A IL\u00cdQUIDA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O prazo de 30 dias para a formula\u00e7\u00e3o do pedido principal (CPC, art. 308) <strong>pressup\u00f5e a viabilidade jur\u00eddica do exerc\u00edcio da pretens\u00e3o<\/strong>: havendo impedimento legal, como a necessidade de pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o para apurar o <em>quantum debeatur<\/em>, <strong>o termo inicial desloca-se para o momento em que cessa o \u00f3bice<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 2.708.782-SC, Rel. Min. Raul Ara\u00fajo, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vencedora de demanda ainda il\u00edquida, a Construforte obteve arresto em tutela cautelar antecedente para blindar a futura execu\u00e7\u00e3o contra o esvaziamento patrimonial da devedora. Veio ent\u00e3o a armadilha do calend\u00e1rio: o art. 308 do CPC d\u00e1 30 dias, contados da efetiva\u00e7\u00e3o da cautelar, para o pedido principal, mas o cumprimento de senten\u00e7a dependia de liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, ainda em curso. A medida caduca por n\u00e3o se fazer o que a lei mesma impede de fazer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 308, <em>caput<\/em><\/strong> <em>(efetivada a tutela cautelar requerida em car\u00e1ter antecedente, o pedido principal deve ser formulado em 30 dias, sob pena de cessa\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia da medida).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A <em>mens legis<\/em> \u00e9 impedir que o benefici\u00e1rio da tutela assecurat\u00f3ria durma sobre ela, eternizando a constri\u00e7\u00e3o sem avan\u00e7ar no m\u00e9rito; o prazo \u00e9 instrumento de coer\u00e7\u00e3o \u00e0 conduta ativa, n\u00e3o san\u00e7\u00e3o pela omiss\u00e3o do imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Sendo o pedido principal um cumprimento de senten\u00e7a, exige-se t\u00edtulo l\u00edquido, certo e exig\u00edvel; pendente a liquida\u00e7\u00e3o, o credor est\u00e1 materialmente impedido de executar, e o trint\u00eddio s\u00f3 corre do tr\u00e2nsito em julgado da decis\u00e3o que resolver o m\u00e9rito da liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd At\u00e9 esse marco, preserva-se a efic\u00e1cia do arresto: deix\u00e1-lo caducar antes de o credor poder executar esvaziaria a tutela no exato momento em que ela se faz necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A devedora empunhava a letra e o prop\u00f3sito do prazo: constri\u00e7\u00e3o patrimonial \u00e9 estado de exce\u00e7\u00e3o, <strong>e a in\u00e9rcia do benefici\u00e1rio deve custar a efic\u00e1cia da medida<\/strong>, sob pena de arresto eterno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f S\u00f3 est\u00e1 inerte <strong>quem pode agir e n\u00e3o age<\/strong>; o credor de senten\u00e7a il\u00edquida n\u00e3o tem, ainda, pretens\u00e3o executiva exercit\u00e1vel, e punir a espera for\u00e7ada seria exigir o processualmente imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Poderia objetar-se que a sa\u00edda alonga a constri\u00e7\u00e3o <strong>por anos de liquida\u00e7\u00e3o complexa<\/strong>, com o patrim\u00f4nio do devedor sob cadeado. O contrapeso est\u00e1 no pr\u00f3prio sincretismo do CPC: a liquida\u00e7\u00e3o \u00e9 etapa do mesmo processo, sob controle judicial, e o devedor conserva os meios de impugn\u00e1-la; <strong>o que n\u00e3o se admite \u00e9 premiar o esvaziamento patrimonial com a caducidade autom\u00e1tica<\/strong> da \u00fanica prote\u00e7\u00e3o do credor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Efetivado o arresto em tutela cautelar antecedente, e sendo o pedido principal um cumprimento de senten\u00e7a que depende de pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o, o prazo de 30 dias do art. 308 do CPC:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) corre da efetiva\u00e7\u00e3o da medida, cessando a efic\u00e1cia do arresto se o pedido n\u00e3o vier no trint\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) conta-se do encerramento definitivo da liquida\u00e7\u00e3o, marco em que cessa o impedimento legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) suspende-se por at\u00e9 90 dias, prorrog\u00e1veis mediante justificativa fundamentada do credor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) n\u00e3o se aplica \u00e0s medidas de arresto, regidas pelo regime cautelar aut\u00f4nomo do c\u00f3digo revogado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) transcorre pela metade, reduzido o prazo em raz\u00e3o da pend\u00eancia do procedimento liquidat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A contagem mec\u00e2nica imporia a caducidade pela omiss\u00e3o do imposs\u00edvel: sem t\u00edtulo l\u00edquido, o cumprimento de senten\u00e7a nem pode ser instaurado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. Foi a solu\u00e7\u00e3o do AREsp 2.708.782: o termo inicial desloca-se para o fim do \u00f3bice legal, preservada a efic\u00e1cia do arresto at\u00e9 o tr\u00e2nsito em julgado da liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 suspens\u00e3o tarifada em 90 dias: o crit\u00e9rio \u00e9 a cessa\u00e7\u00e3o do impedimento jur\u00eddico, aferida pelo desfecho da liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O arresto se submete ao regime da tutela cautelar antecedente do CPC\/2015, inclusive ao art. 308; o que se ajustou foi o termo inicial do prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. Nenhuma contagem reduzida foi criada; o trint\u00eddio permanece \u00edntegro, apenas com marco inicial compat\u00edvel com a exigibilidade da pretens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-9\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em definir se o prazo de 30 (trinta) dias para a formula\u00e7\u00e3o do pedido principal, contado da efetiva\u00e7\u00e3o da medida cautelar, pode ser flexibilizado quando o pedido principal consiste em cumprimento de senten\u00e7a e a senten\u00e7a condenat\u00f3ria permanece il\u00edquida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O art. 308, <em>caput<\/em>, do CPC estabelece que, efetivada a tutela cautelar antecedente, o autor deve formular o pedido principal no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de cessa\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia da medida concedida. A <em>mens legis<\/em> do dispositivo \u00e9 clara: evitar que a parte benefici\u00e1ria da tutela assecurat\u00f3ria permane\u00e7a indefinidamente protegida pela medida cautelar sem fazer avan\u00e7ar a pretens\u00e3o principal de m\u00e9rito, o que desequilibraria a rela\u00e7\u00e3o processual e perpetuaria situa\u00e7\u00e3o de incerteza jur\u00eddica para o polo passivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, a exegese do dispositivo n\u00e3o pode ser feita de forma isolada e mec\u00e2nica. A regra tem como pressuposto l\u00f3gico e jur\u00eddico que o pedido principal seja, ao tempo da efetiva\u00e7\u00e3o da cautelar, pass\u00edvel de formula\u00e7\u00e3o. O prazo somente tem sentido enquanto instrumento de coer\u00e7\u00e3o \u00e0 conduta ativa do benefici\u00e1rio da medida; n\u00e3o pode funcionar como san\u00e7\u00e3o pela omiss\u00e3o de algo que a pr\u00f3pria ordem jur\u00eddica impede que se fa\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O pedido principal a ser formulado \u00e9 o cumprimento de senten\u00e7a, modalidade executiva que exige, como requisito de admissibilidade, a exist\u00eancia de t\u00edtulo executivo judicial l\u00edquido, certo e exig\u00edvel. Enquanto a senten\u00e7a condenat\u00f3ria permanecer il\u00edquida &#8211; isto \u00e9, enquanto o <em>quantum debeatur<\/em> n\u00e3o for apurado por meio do competente procedimento de liquida\u00e7\u00e3o -, o credor est\u00e1 materialmente impedido de iniciar o cumprimento de senten\u00e7a, seja ele provis\u00f3rio ou definitivo. Assim, antes do tr\u00e2nsito em julgado da senten\u00e7a que resolver o m\u00e9rito da liquida\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 t\u00edtulo l\u00edquido e exig\u00edvel a amparar o cumprimento de senten\u00e7a, tornando jur\u00eddico e processualmente imposs\u00edvel o manejo do pedido principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, infere-se que agiu com acerto o Tribunal de origem ao fixar como termo inicial para a contagem do trint\u00eddio do art. 308 do CPC o tr\u00e2nsito em julgado da decis\u00e3o que resolver o m\u00e9rito da liquida\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a, preservando-se, at\u00e9 esse marco, a efic\u00e1cia da medida cautelar de arresto. Impor ao autor o dever de formular o pedido principal antes disso equivaleria a exigir o processualmente imposs\u00edvel, punindo a parte por uma situa\u00e7\u00e3o de impedimento que n\u00e3o lhe \u00e9 imput\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a medida de arresto foi deferida exatamente para assegurar a efetividade de futura execu\u00e7\u00e3o. Permitir que ela caduque antes mesmo de ser poss\u00edvel ao credor instaurar o cumprimento de senten\u00e7a esvaziaria por completo a utilidade da tutela assecurat\u00f3ria, privando o credor da prote\u00e7\u00e3o jurisdicional no exato momento em que ela se faz necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, o STJ assentou que o prazo de 30 dias para a parte formular o pedido principal se amolda \u00e0 sistem\u00e1tica do sincretismo processual do CPC\/2015, em que h\u00e1 apenas um processo, com uma etapa inicial relativa \u00e0 tutela cautelar antecedente e uma etapa posterior de apresenta\u00e7\u00e3o do pedido principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, a dila\u00e7\u00e3o do prazo para formula\u00e7\u00e3o do pedido principal \u00e9 compat\u00edvel com os princ\u00edpios da efetividade processual, da proporcionalidade e da razoabilidade, al\u00e9m de estar em estrita conformidade com a melhor exegese doutrin\u00e1ria e com os vetores interpretativos que se extraem da jurisprud\u00eancia do STJ.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-12-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-injuria-racial-e-dano-moral-in-re-ipsa-na-sentenca-penal\" class=\"wp-block-heading\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; INJ\u00daRIA RACIAL E DANO MORAL IN RE IPSA NA SENTEN\u00c7A PENAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inj\u00faria racial gera <strong>dano moral presumido, na modalidade <em>in re ipsa<\/em><\/strong>, por atingir a honra, a dignidade, a igualdade e a identidade da v\u00edtima; a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo indenizat\u00f3rio (CPP, art. 387, IV) <strong>dispensa instru\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre o abalo quando h\u00e1 pedido expresso e indica\u00e7\u00e3o do montante na den\u00fancia<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.251.248-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 18\/8\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Condenado por injuriar Crementina com ofensas fundadas na cor de pele, Creosvaldo viu a senten\u00e7a penal fixar-lhe tamb\u00e9m o valor m\u00ednimo de repara\u00e7\u00e3o: dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos, exatamente o montante que o Minist\u00e9rio P\u00fablico requerera j\u00e1 na den\u00fancia. A defesa recorreu apontando a falta de instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria sobre o sofrimento da v\u00edtima: sem prova do abalo, n\u00e3o haveria dano a indenizar. Humilha\u00e7\u00e3o racial precisa de testemunha da dor?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 387, IV<\/strong> <em>(o juiz, ao proferir senten\u00e7a condenat\u00f3ria, fixar\u00e1 valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o, considerando os preju\u00edzos sofridos pelo ofendido).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A ofensa fundada em ra\u00e7a, cor, etnia ou origem transforma caracter\u00edstica constitutiva da pessoa em instrumento de inferioriza\u00e7\u00e3o: a les\u00e3o est\u00e1 contida na pr\u00f3pria agress\u00e3o, e exigir prova do sofrimento imporia \u00f4nus incompat\u00edvel com a natureza da viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Regra geral da Terceira Se\u00e7\u00e3o para o valor m\u00ednimo: pedido expresso na den\u00fancia, indica\u00e7\u00e3o do montante e instru\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre o dano, ressalvados os danos presumidos; na viol\u00eancia dom\u00e9stica (Tema 983), basta o pedido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Na inj\u00faria racial, presentes o pedido e o montante na inicial acusat\u00f3ria, a prova concentra-se no fato, na autoria e no conte\u00fado discriminat\u00f3rio; as circunst\u00e2ncias concretas (gravidade da express\u00e3o, contexto, exposi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima) servem \u00e0 dosagem do valor, com as finalidades compensat\u00f3ria, preventiva e pedag\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A defesa apoiava-se na regra geral: sem instru\u00e7\u00e3o sobre a extens\u00e3o do preju\u00edzo, <strong>a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo viraria condena\u00e7\u00e3o civil \u00e0s cegas<\/strong>, violando contradit\u00f3rio e ampla defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Quinta Turma respondeu com a natureza da les\u00e3o: quem usa a cor da v\u00edtima como arma de menosprezo <strong>fere a dignidade no pr\u00f3prio ato de ofender<\/strong>; o dano \u00e9 <em>in re ipsa<\/em>, e a ressalva dos danos presumidos integra a jurisprud\u00eancia da Terceira Se\u00e7\u00e3o desde o REsp 1.986.672.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Restava o argumento do deslocamento normativo: a migra\u00e7\u00e3o da inj\u00faria racial para a Lei dos Crimes Raciais <strong>mudaria o regime dos fatos anteriores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O reposicionamento s\u00f3 refor\u00e7a a gravidade que a conduta j\u00e1 carregava no art. 140, \u00a7 3\u00ba, do CP: <strong>a carga discriminat\u00f3ria sempre distinguiu essa inj\u00faria das demais<\/strong>; garantidos \u00e0 defesa, desde a den\u00fancia, o pedido e o valor, o contradit\u00f3rio se exerce sobre eles, sem necessidade de instru\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 dor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na condena\u00e7\u00e3o por inj\u00faria racial, a fixa\u00e7\u00e3o de valor m\u00ednimo de repara\u00e7\u00e3o por dano moral (CPP, art. 387, IV):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) exige instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria espec\u00edfica sobre o abalo psicol\u00f3gico experimentado pela v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) depende de a\u00e7\u00e3o civil pr\u00f3pria, vedada a cumula\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o indenizat\u00f3ria com a penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) dispensa at\u00e9 o pedido expresso, aplicada por extens\u00e3o a tese da viol\u00eancia dom\u00e9stica (Tema 983).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) prescinde de instru\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre o abalo, presentes o pedido expresso e o montante na den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) limita-se aos danos materiais comprovados, estranho o preju\u00edzo moral \u00e0 senten\u00e7a penal condenat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Tratando-se de dano presumido, na modalidade <em>in re ipsa<\/em>, exigir prova do sofrimento imporia \u00e0 v\u00edtima \u00f4nus incompat\u00edvel com a natureza da viola\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O art. 387, IV, do CPP autoriza exatamente a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo na senten\u00e7a penal, sem preju\u00edzo da liquida\u00e7\u00e3o complementar no ju\u00edzo c\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A dispensa do pedido \u00e9 exce\u00e7\u00e3o restrita \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher; na inj\u00faria racial permanecem exigidos o pedido expresso e a indica\u00e7\u00e3o do montante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. Foi a conclus\u00e3o do REsp 2.251.248: com pedido e valor na den\u00fancia, assegurado o contradit\u00f3rio desde o in\u00edcio, a instru\u00e7\u00e3o volta-se ao fato, \u00e0 autoria e \u00e0 carga discriminat\u00f3ria da ofensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O dispositivo abrange a repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o, inclu\u00eddo o moral; a jurisprud\u00eancia o aplica de longa data \u00e0s les\u00f5es extrapatrimoniais.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-10\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em definir se, em condena\u00e7\u00e3o por inj\u00faria racial, \u00e9 poss\u00edvel fixar valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o de danos morais \u00e0 v\u00edtima, nos termos do art. 387, IV, do C\u00f3digo de Processo Penal, quando h\u00e1 pedido expresso e indica\u00e7\u00e3o do montante pretendido na den\u00fancia, independentemente de instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria espec\u00edfica sobre o abalo extrapatrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A inj\u00faria racial configura dano moral presumido, na modalidade <em>in re ipsa<\/em>, porque a ofensa fundada em ra\u00e7a, cor, etnia ou origem ultrapassa a simples agress\u00e3o verbal e alcan\u00e7a dimens\u00e3o mais profunda da personalidade da v\u00edtima. A conduta n\u00e3o atinge apenas a honra subjetiva em sentido estrito, mas tamb\u00e9m a dignidade, a identidade e o direito de ser reconhecida socialmente em condi\u00e7\u00e3o de igualdade. Ao empregar elemento racial como forma de menosprezo, o ofensor transforma caracter\u00edstica constitutiva da pessoa em instrumento de inferioriza\u00e7\u00e3o, o que revela, por si, a gravidade da les\u00e3o extrapatrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessas hip\u00f3teses, a exig\u00eancia de prova espec\u00edfica de sofrimento psicol\u00f3gico, humilha\u00e7\u00e3o ou abalo emocional imporia \u00e0 v\u00edtima \u00f4nus incompat\u00edvel com a natureza da viola\u00e7\u00e3o, pois a dor moral n\u00e3o resulta de circunst\u00e2ncia externa ou posterior ao fato, mas est\u00e1 contida na pr\u00f3pria agress\u00e3o racial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Feitas essa considera\u00e7\u00f5es, consoante o entendimento da Terceira Se\u00e7\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, o estabelecimento de valor m\u00ednimo para indeniza\u00e7\u00e3o (moral ou material) na senten\u00e7a penal condenat\u00f3ria, nos termos do art. 387, IV, do CPP, exige de modo geral o atendimento a tr\u00eas requisitos: (I) a exig\u00eancia de pedido expresso na den\u00fancia, (II) com indica\u00e7\u00e3o da quantia pretendida, e (III) a instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria espec\u00edfica sobre o dano e sua extens\u00e3o (ressalvados, no que couber em suas peculiaridades, os casos de dano presumido).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exce\u00e7\u00e3o fica para os casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher, em que se requer apenas o pedido expresso da acusa\u00e7\u00e3o ou da v\u00edtima, conforme a tese adotada no julgamento do Tema 983\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o \u00f3rg\u00e3o de acusa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 na den\u00fancia, requereu expressamente a fixa\u00e7\u00e3o de valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados \u00e0 v\u00edtima, no montante equivalente a dois sal\u00e1rios m\u00ednimos. Desse modo, foi assegurado \u00e0 defesa, desde o in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o penal, o pleno conhecimento da pretens\u00e3o indenizat\u00f3ria deduzida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, em observ\u00e2ncia ao contradit\u00f3rio e \u00e0 ampla defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, tratando-se de dano moral presumido, na modalidade <em>in re ipsa<\/em>, decorrente de crime de inj\u00faria racial &#8211; previsto, \u00e0 \u00e9poca dos fatos, no art. 140, \u00a7 3\u00ba, do C\u00f3digo Penal, e atualmente tipificado no art. 2\u00ba-A da Lei n. 7.716\/1989 -, mostra-se desnecess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o processual espec\u00edfica para comprova\u00e7\u00e3o do abalo extrapatrimonial. A les\u00e3o moral, nessa hip\u00f3tese, decorre da pr\u00f3pria gravidade discriminat\u00f3ria da ofensa, dirigida \u00e0 honra, \u00e0 dignidade, \u00e0 igualdade e \u00e0 identidade da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa compreens\u00e3o harmoniza-se com o entendimento firmado pela Terceira Se\u00e7\u00e3o no REsp 1.986.672\/SC, segundo o qual, nas hip\u00f3teses de dano moral presumido, a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo reparat\u00f3rio, nos termos do art. 387, IV, do CPP, exige pedido expresso e indica\u00e7\u00e3o do montante pretendido na den\u00fancia, mas dispensa instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria espec\u00edfica acerca do preju\u00edzo moral. A an\u00e1lise probat\u00f3ria deve concentrar-se na exist\u00eancia do fato, na autoria e no conte\u00fado discriminat\u00f3rio da ofensa, ficando a extens\u00e3o das circunst\u00e2ncias concretas reservada \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o do valor indenizat\u00f3rio. Nesse momento, caber\u00e1 ao julgador considerar a gravidade da express\u00e3o utilizada, o contexto em que proferida, a exposi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, a intensidade da viola\u00e7\u00e3o e as finalidades compensat\u00f3ria, preventiva e pedag\u00f3gica da condena\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, embora tenha havido posterior deslocamento normativo da inj\u00faria racial do CP para a Lei dos Crimes Raciais, tal altera\u00e7\u00e3o apenas refor\u00e7a a especial gravidade da conduta, sem afastar a carga discriminat\u00f3ria que j\u00e1 caracterizava o delito \u00e0 \u00e9poca em que previsto no art. 140, \u00a7 3\u00ba, do C\u00f3digo Penal. Mesmo antes da modifica\u00e7\u00e3o legislativa, a ofensa racial j\u00e1 se distinguia das demais modalidades de inj\u00faria por atingir a v\u00edtima a partir de sua vincula\u00e7\u00e3o a grupo historicamente discriminado, raz\u00e3o pela qual a viola\u00e7\u00e3o aos direitos da personalidade era suficiente para mobilizar o reconhecimento do dano moral como presumido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-32e7845e-5513-4a23-98c6-b347e860b683\" href=\"https:\/\/concursos.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/stj-info-898.pdf\">STJ &#8211; Info 898<\/a><a href=\"https:\/\/concursos.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/stj-info-898.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download 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